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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Ainda sobre o filme Tatuagem, de Hilton Lacerda: novas considerações



Filme bom é aquele sobre o qual muito há o que dizer. Assim, volto ao filme Tatuagem, de Hilton Lacerda, comentado em post anterior, que visava chamar a atenção para os temas gerais do filme, indicar possíveis correlações com outras produções cinematográficas recentes e com movimentos políticos de inspiração queer, como a Marcha das Vadias. Agora, gostaria de propor reflexões um pouco mais específicas sobre Tatuagem, e para isso farei alusão a algumas de suas cenas, de modo que o texto que se segue é contra-indicado àqueles que porventura ainda não o tenham assistido.

Como todos sabem, tatuagem é uma inscrição, uma incisão colorida e dolorida que marca a pele, que fere o corpo para exibir uma mensagem ou um símbolo que não mais se apagam, que duram no tempo e assim estabelecem um elo de ligação entre presente, passado e futuro. Por certo, o título do filme faz menção à sequência em que Fininha (Jesuíta Barbosa) se faz tatuar por seus colegas de exército, que lhe desenham um tosco coração contendo em seu interior a letra C, de Clécio (Irandhir Santos), na altura de seu próprio coração, como prova de amor e admiração pelo líder do grupo de teatro por quem ele se apaixonou. Mas essa tatuagem afetiva também exprime de maneira condensada o assunto mesmo de toda a película, que trata justamente de experiências que marcam o corpo de maneira indelével. Em uma palavra, o filme nos mostra como fazer do corpo um instrumento de amor, de erotismo, de beleza e de luta política contra a rigidez dos valores e comportamentos militares que comandaram o país por vinte longos anos, e que ainda hoje teimam em não desaparecer de nossa paradoxal democracia.


Assim, Tatuagem é um filme político, mas sua política não se faz com partidos, estados, eleições, organizações sociais ou disciplinas militares, mas com palavras-de-ordem debochadas, irônicas, corrosivas, que têm o cu como motivo central: o cu como lugar de prazer e de subversão, como princípio estético que orienta a criação teatral, como lugar de diversão a todos garantida, o cu como lugar de um baile mais que profano, pois que profana a ordem vigente, fustigando a censura militar que logo se apressa em proibir tais espetáculos 'imorais'. Uma das cenas mais divertidas e marcantes do filme, encenada duas vezes, mostra os atores e as atrizes do cabaré Chão de Estrelas todos nus, cobertos de purpurina, vistos de costas pelos espectadores, as bundas empinadas e rebolantes, dançando ao som da divertida Polca do Cu. Esta, por sua vez, nos esclarece que o dito cujo não é UM, mas MUITOS, com qualidades, atributos e predicados distintos e variados. Esta cena é precedida pelo prólogo desbocado de Clécio, que explica as virtudes democráticas do órgão que todos temos, e que, talvez, até mesmo ELE o tenha, o cu onisciente e onipresente, amém.



A política de Tatuagem é uma política da vida em comum, da vida comunitária no casarão de Olinda, onde habitam os atores e as atrizes do cabaré popular, como também aconteceu com o grupo carioca Dzi Croquettes, da mesma época e da mesma cepa (ver http://okupacao.blogspot.com.br/2010/12/dzi-croquettes-documentario.html). Tatuagem é uma crônica da vida-artista vivida em comum, é uma crônica de vidas vividas à margem dos conceitos e preconceitos burgueses, crônica cotidiana das vidas livres, alegres, autogestionárias e críticas, vidas cínicas no melhor estilo daquilo que Foucault certa vez denominou como as "posteridades transhistóricas" do cinismo antigo. 





De fato, boa parte do filme transcorre em meio a esta vida em comum, com suas festas malucas, seus trabalhos manuais, os ensaios teatrais, as pequenas diversões na rede embalada por maconha e conversas desconexas sobre o filme Laranja mecânica, então recém-lançado no Rio de Janeiro, as dificuldades econômicas da vida alternativa, bem como a necessidade de inventar uma ordem coletiva não autoritária, compartilhada democraticamente. Afinal, anarquia não é bagunça e uma das cenas mais tocantes mostra Clécio e Paulette entre mal disfarçadas lágrimas, discutindo não apenas a relação afetiva entre os dois, interrompida e transformada pela chegada de Fininha, mas também a desordem mental de Paulette, desde que ele passa a se entregar a um traficante que o está viciando em cocaína, prejudicando assim seu envolvimento com o grupo e seu trabalho como ator. É comovedor ver como Clécio se aproxima de Paulette e o chama à razão da maneira mais delicada e amorosa, mostrando-nos que autoridade não se confunde com autoritarismo e que ordem, engajamento e dedicação tampouco se reduzem à disciplina militar que impera no quartel. 




Um quartel, aliás, saturado de sexualidade e de desejos homossexuais, expressos, porém, sempre de maneira violenta, seja na pegação furtiva, às escondidas, seja na violência verbal e física sob o olhar de todos. De maneira perspicaz e refinada, Hilton Lacerda escapa à contraposição simplista entre a vida-artista e a vida militar, pois mesmo o antro da ordem está permeado pela desordem, já que também ali o cu faz valer seus imperativos. Não é casual que o coração de Fininha seja tatuado pelos companheiros de ofício militar, e que ele próprio se envolva sexualmente com um sargento dentista da corporação, ferindo o coração de Clécio e despertando desconfiança nos outros moradores do casarão: seria um infiltrado? Tampouco é casual que o recruta que por ele é obcecado se empenhe com tanto vigor na repressão ao último espetáculo do Chão de Estrelas, aquele do qual também participa o soldado Fininha, empinando em público seu cu tão disputado.


Mas Tatuagem, sendo tudo isto (e muito mais), é também e sobretudo um filme sobre o amor entre dois homens. A esse respeito vemos ali exemplos primorosos de como o amor, o erotismo e o próprio sexo ainda geram fortes efeitos político-afetivos, capazes de desestabilizar padrões bem estabelecidos de comportamento. São lindas as cenas de flerte no cabaré, na noite do primeiro encontro, particularmente quando Clécio, vestido como mulher e com voz feminina, porém portando barba, interpreta a magnífica canção de Caetano Veloso, "Esse cara", olhando fixamente nos  olhos de Fininha. Seu gestual, sua maneira de olhar e revirar os olhos, a combinação das roupas femininas e dos pêlos masculinos, tudo isso conspira para nos fazer lembrar dos Dzi Croquettes, de mais a mais, já explicitamente homenageados pelo codinome 'Paulette'.



 A paquera entre Clécio e Fininha evolui para o flerte decidido na cena em que os dois dançam romanticamente ao som de "A noite do meu bem", na voz de Dolores Duran, outro primor de erotismo, raras vezes visto no cinema nacional ou internacional. É maravilhoso acompanhar o desenrolar da cena, com Clécio empunhando a mão de Fininha, ajustando-se a ele para conduzi-lo na dança, moldando com engenho seu corpo ao dele, enquanto a velha gravação do LP entoa: "Quero ternura de mãos se encontrando..." 






Muito naturalmente, a sequência se conclui com uma magnífica trepada, coreografada sob medida para não deixar qualquer dúvida de que o que vemos ali é o amor e o sexo entre dois homens. Há ainda as lindas cenas do namoro no mar, entre beijos salgados e carícias que atiçam corpos reluzentes sob o sol dourado do Recife. Se alguém se recordar de cenas mais bonitas e eróticas no cinema brasileiro, que fale agora...O brilho solar dessas cenas só é igualado pelos beijos de Emma e Adèle em Azul é a cor mais quente.http://okupacao.blogspot.com.br/2013/12/normal.html


Por fim, retorno a um tema que me parece decisivo e ao qual já havia feito referência em post anterior: a sutil comunicação temporal entre passado, presente e futuro que o filme parece estabelecer. Tatuagem é um filme sobre nosso passado, sua história se desenrola em 1978, quando a longa ditadura militar finalmente entrava em seu período de distensão, prenunciando seu derradeiro esgotamento. Essa comunicação temporal é fundamental no filme, que não casualmente tem por chamada a frase: "No futuro, o amor e a liberdade serão como num filme". Na narrativa de Lacerda, essa alusão ao futuro se estabelece pelo recurso ao filho quase-adolescente de Deusa e Clécio, bem como pelo filme dentro do filme, concebido como mensagem lançada ao mar dentro de uma garrafa que hoje nos chega às mãos. 



Ao longo do filme a criança aparece pouco, mas todas as suas aparições são significativas; numa delas, Clécio reclama com Deusa por ela ter levado o menino ao cabaré, que ironiza o pai enquanto a mãe sentencia: "Clécio, não existe lugar bom ou ruim para criança, o que existe é educação boa ou ruim." Basta essa frase para que caiam por terra todos os preconceitos relativos à suposta boa educação das crianças. E de fato, o menino convive aberta e tranquilamente com as bichas, os sapatões, o amor livre e as drogas, e sua expressão contínua de confiança e felicidade estampada no rosto é quase uma prova de que haverá de haver mais e melhor vida no futuro.



Quanto ao filme dentro do filme, creio que ele mereceria longas considerações, mas falta-me cultura cinematográfica para tanto. À primeira vista não pareceria haver nada muito especial ali, nada mais, talvez, que um apanhado de imagens sem nexo, pontuadas por algumas poucas considerações em off do cineasta-filósofo, que as anuncia como imagens destinadas ao futuro. São imagens oníricas, de forte poder simbólico, talvez sejam até mesmo imagens totêmicas ou mitológicas para nós, brasileiros; seja como for, são imagens emblemáticas, que grudam na nossa memória e provocam nossa imaginação. A despeito de desconexas, elas parecem possuir um fio condutor secreto: para mim, ao menos, era como se Lacerda pretendesse amarrar o cinema de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, mais o cinema italiano de Pasolini e de Felini, ao próprio cinema que ele agora vem nos oferecer, no começo do século XXI. Vemos nessas imagens todo seu apego ao universo popular do circo mambembe e do teatro de rua, mas tais imagens também contêm outras referências temporais. Simultaneamente, elas fazem referência a um passado brasileiro tingido de cores e traços épico-mitológicos, com seus índios e índias, sambistas, bichas, sapatões e travestis, ao passo em que também aludem ao futuro de uma civilização tecnológica periférica, que tenta se arrumar com o pouco de que dispõe. Penso, em particular, nas imagens do astronauta de lata e bugigangas, que caminha desorientado em meio a bananeiras e índias que o veneram espantadas. 



O filme dentro do filme tem a nós, seus espectadores, como destinatários; é a nós, que vivemos em outra época, que tais imagens são endereçadas, é a nós que elas procuram dizer algo. Mas o quê? É difícil dizer. Talvez tais imagens sejam a síntese utópica de um país (im)possível. São imagens captadas pela lente filosófica e delirante de Lacerda, um cineasta que sabe que a força do cinema não reside apenas na coesão da história narrada, mas, sobretudo, nas imagens mesmas, com seus acenos para novas e velhas possibilidades existenciais, sempre dotadas de cor local e historicidade. 


PS: Acabo de descobrir que o cineasta-filósofo de Tatuagem está inspirado no cineasta-filósofo Jomard Muniz de Britto, que documentou em super-8 algumas atividades do grupo teatral Vivencial Diversiones, do Recife, ao qual alude o Cabaré Chão de Estrelas, do filme de Lacerda. Vejam o vídeo e escutem a bela, enigmática e instigante canção de Caetano Veloso, "Pelos Olhos" http://youtu.be/JGaooahdba8

Mais informação sobre o filme Tatuagem em: 
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/01/1393907-exposicao-no-rio-reve-producao-experimental-de-pernambuco.shtml

   

sábado, 4 de janeiro de 2014

Tatuagem e o novo cinema brasileiro




Como falar de Tatuagem, para mim (e para muita gente mais) o melhor filme brasileiro de 2013? É difícil até mesmo caracterizar a dificuldade em falar dele. E no entanto o filme não é hermético, não é um filme de intelectuais para intelectuais, não contém grandes ousadias narrativas ou estéticas, embora escape ao padrão da atual narrativa cinematográfica nacional ou estrangeira, sempre muito linear e didático-explicativa. 

O que torna difícil escrever sobre ele é a sutileza com que Hilton Lacerda, talvez o melhor roteirista da atualidade, fabricou sua intricada tessitura narrativa, intercalando acontecimentos de natureza e escala diversas, os quais se contrapõem e se misturam sem se superpor ou se anular. De fato, o filme se constrói em torno à contraposição entre a vida no exército (em pleno regime militar) e o teatro popular, o cabaré Chão de Estrelas; entre a vida comunitária na capital Recife e a modorra da vida familiar no interior profundo de Pernambuco; entre o amor e o sexo heterossexuais e o amor e o sexo homossexuais; entre a ordem disciplinar e o deboche crítico e criativo; entre o presente narrado, o ano de 1978, e o futuro ao qual a criança e o filme dentro do filme fazem alusão, qual mensagem lançada ao mar em garrafa que hoje nos chega, em pleno século 21.


Muitos aspectos mereceriam comentário detido, como a trilha sonora produzida pelo DJ Dolores, cheia de novos achados (Johnny Hooker) e releituras, como a bela canção de Caetano Veloso, “Esse cara”, interpretada pelo melhor ator do cinema nacional nos dias de hoje, Irandhir Santos. Pense nos melhores filmes nacionais recentes e você o encontrará em mais da metade deles...




Há também as interpretações primorosas de Jesuíta Barbosa, Rodrigo Garcia e Sylvia Prado, todos de um desprendimento e de uma veracidade exemplares; há o colorido solar de um filme cheio de esperança boêmia e alegria praieira; e, sobretudo, há as imagens filmadas em super-8 pelo filósofo-cineasta (Silvio Restiffe), imagens de caráter totêmico e onírico

Elas condensam em cor, luz e ritmo as utopias de um país (im)possível, amarrando o passado do cinema (Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Felini e Pasolini) às suas possibilidades contemporâneas. 
Dentre tanta coisa positiva e interessante a se comentar e discutir, penso que a comunicação sutil entre passado e presente é um dos traços que melhor respondem pelo sucesso da mágica bem realizada por Lacerda. Este me parece ser também o traço que faz de Tatuagem um filme-irmão de Febre do rato, de Claudio Assis, com roteiro do mesmo Hilton Lacerda, bem como um filme irmanado ao documentário de Tatiana Issa, Dzi Croquetteshttp://okupacao.blogspot.com.br/2010/12/dzi-croquettes-documentario.html


Tatuagem fala do passado e de experiências estéticas, políticas e afetivas que se perderam no tempo, mas que cada vez mais começam a se tornar audíveis, compreensíveis e significativas em nosso presente. Dentre os elementos que permitiriam estabelecer esses elos frágeis entre passado e presente nomeio a vida comunitária e marginal, quase diria, inspirado em Foucault, a vida cínica e vivida à margem das formas hegemônicas do viver, amar e transar. Motivo pelo qual nessa vida ‘outra’ e em comum, o sexo, o corpo e o deboche são fios condutores que não apenas amarram como aproximam Tatuagem, Dzi Croquettes e Febre do rato

Ora, como não reconhecer semelhanças e afinidades entre estes filmes estético-políticos e manifestações políticas de inspiração queer de nosso tempo como a Marcha das Vadias, orientada pelos mesmos elementos criativos, contestadores e críticos, aggiornados para nosso tempo? (Sobre a Marcha das Vadias: http://okupacao.blogspot.com.br/2013/07/marcha-das-vadias-2013-ironia-como.htmlhttp://okupacao.blogspot.com.br/2012/07/marcha-das-vadias-em-curitiba-2012.html);http://okupacao.blogspot.com.br/2013/07/feminismo-vadio-publicado-em-12072013.html

Ontem como hoje, o deboche cínico, a criatividade espontânea e instantânea, a contestação dos padrões normativos de gênero, sexo e etnia, tudo isso amarra presente e passado, anunciando promessas de futuro. E o cinema brasileiro, quando reflete sobre sua própria história e sobre a história brasileira continua a nos oferecer o que temos de melhor. 

Por tudo isso, O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, há de ser mencionado como outra excelente produção cinematográfica do ano que acaba de acabar. Mas para falar deste filme que investiga a reprodução de nossa estagnação histórica, que faz com que o que de pior tivemos em nosso passado se congele e demore muito a passar, já seria preciso começar um novo post...


De todo modo, as ideias aqui apresentadas não passam de ensaio visando preparar o caminho para reflexões mais apuradas e alongadas sobre o novo cinema brasileiro, pois muito ainda há que pensar a respeito dos filmes que mencionei aqui, para não falar naqueles que ficaram de fora...



domingo, 15 de dezembro de 2013

Azul é a cor do desejo






Sem ser um filme excepcional, "Azul é a cor mais quente" é bastante bom e se torna ainda melhor quando assistido pela segunda vez. Ele retrata a vida de Adèle, título original da película em francês, acompanhando-a em sua transição da adolescência à fase adulta. É, pois, um filme de formação que conta a história de como alguém, pouco a pouco, passo a passo, em meio a incertezas e dúvidas, começa a tornar-se ela mesma, e é claro que o amor, o sexo e a profissão são elementos-chave neste processo de constituição subjetiva.
Essas coordenadas existenciais são explicitadas pela menção, algo exaustiva, no começo do filme, ao romance de Marivaux, La vie de Marianne. O começo do filme padece de um dos vícios do cinema francês, o 'didatismo' intelectual: citações de Ponge, de Chordelos de Laclos, Sartre expliqué aux enfants, bem como o indefectível tema do “amor à primeira vista”. Ele é explorado nas discussões em sala de aula e imediatamente cumprido à risca na primeira vez em que Adèle repara nos cabelos azuis de Emma, que passa por ela na rua e a deixa desnorteada. 


Coup-de-foudre, dizem os franceses. Ok, mas precisava ser tão didático? Pouco depois vem a  cena do sonho erótico com a misteriosa garota de cabelos azuis, que, obviamente, termina em masturbação e orgasmo violento: mais uma cena que me pareceu didática, servindo apenas para preparar o espectador para o que acontecerá a seguir. Mas quem precisa dessa preparação? Tais recursos narrativos enfraquecem a história e a tornam convencional. Ou melhor, quase convencional, pois o amor à primeira vista de Adèle será por outra mulher, e isto muda muita coisa…
Para contar essa história de amor ao longo de 3 horas (e garanto que não são 3 longas horas!), o diretor Abdelattif Kechiche tomou a arriscada decisão estética de filmar quase tudo, mas quase tudo mesmo, em 'closes' no rosto - sobretudo na boca, verdadeira obsessão - e no corpo de Adèle. 


Essa opção não deixa de ser arriscada, pois narrar uma história de amor entre duas mulheres abstraindo-se quase que totalmente o mundo violento e lesbofóbico em que elas vivem pode ser  bem problemático para a narrativa. De fato, o mundo ao redor de Adèle torna-se quase mero coadjuvante para a exploração de seus sentimentos, sua confusão emocional, seus desejos, sua curiosidade, suas dúvidas, sua dor e sua tristeza. Como o filme é ousado o suficiente para não abrir mão deste pressuposto estético do começo ao fim, a decisão corajosa do diretor, assim me pareceu, provou ser bem sucedida. Não se trata, pois, de um filme voltado para temáticas lésbica ou adolescente, e se é verdade que ele não aborda os problemas da violência e da discriminação lesbofóbica, ele tampouco os distarça ou encobre. Antes de tudo “Azul…” é um filme psicológico: filma-se uma psiquê tal como ela transparece nas expressões faciais e corporais de Adèle. “Me falta alguma coisa”, diz ela entre lágrimas a um colega de classe; e ela realmente não tem a menor ideia do que seja isso que tanto lhe falta. Contrariamente a suas amigas de colégio, já bem instaladas e acomodadas nas identidades sexuais e sociais que a vida e os hábitos de sua baixa classe média lhes impuseram, Adèle é inquieta, nunca está completamente inteira nos lugares em que está, tenta constantemente entender-se, e o mistério a seu respeito permanece intacto em meio às suas muitas oscilações e transformações de menina a mulher. Num filme francês isto é um grande mérito: Adèle não fala de si, é reservada e guarda um silêncio que somente se rompe pela manifestação incontida de seus sentimentos. 



Adèle não é dona de seu destino, não sabe o que vai lhe acontecer, mas em tudo o que decide fazer ela se dá por inteiro e vai fundo na aventura. Adèle é gulosa de vida, de amor e de sexo. 
O filme se encerra sem conclusão, com Adèle caminhando em linha reta pela calçada, vista de costas, se afastando pela primeira vez dos olhos dos espectadores. É um bom achado narrativo para um filme que queria filmar uma etapa na vida de um personagem.
Uma vez tomadas aquelas decisões estéticas, as cenas de sexo entre Adèle e Emma não poderiam escapar a elas. E é por isso que a partir dessas cenas tudo se encaixa literalmente no filme, sobretudo seus corpos. Os corpos nus e os desejos de Adèle e Emma são filmados sem pudor ou vergonha, sem delicadezas edificantes ou edulcorantes, tão comuns no cinema comercial, embora uma amiga tenha observado, argutamente, que aquelas tórridas cenas de amor comportam certa estetização quase higiênica. De fato, as duas se lambem e se chupam explicitamente, uma enterra a cabeça no meio das pernas da outra, mas não veremos uma gota sequer de suor nos seus corpos ou nos seus rostos enquanto as duas se enroscam em cenas talvez jamais vistas no cinema, ao menos fora dos festivais especializados. Do mesmo modo, tampouco aparecem pêlos ou vaginas enquanto as duas transam; ao passo em que, talvez, abundem as bundas, o que trai uma opção estética bem masculina e óbvia. 


Essas observações seriam mero preciosismo não fosse o fato de que desde o começo do filme Kechiche mostra-nos Adèle chorando, as lágrimas encharcando suas bochechas e emaranhando-lhe os cabelos, o nariz escorrendo explicitamente. Porque nenhum fluido macula os corpos e os rostos nas cenas de sexo? Aliás, a única vez em que o sexo de Adèle aparece todo à mostra, depilado, é na cena em que ela, já vivendo com Emma, posa para a amada que a retrata. Sintomaticamente, na representação artística que vemos sendo composta, seu sexo aparece tampado por uns quantos rabiscos pretos: teria sido para preservar algum suposto (e bem duvidoso) bom-gosto artístico? Também me pareceu dispensável prenunciar as cálidas cenas de sexo por meio de closes e tomadas voyeurísticas que percorrem o torso e as nádegas de esculturas, ou ainda, mostrando quadros que retratam mulheres nuas, uma vez mais com clara predileção pelas bundas. Nada contra as bundas, mas levando-se em consideração o que vem a seguir, aquelas cenas são de um didatismo irritante…
De todo modo, é inegável que as próprias cenas de sexo sejam realmente de tirar o fôlego dos espectadores e das atrizes. A primeira delas, a mais longa, exibe mais de sete minutos de puro êxtase carnal, explicitando toda volúpia, amor, confusão e susto com relação ao que podem dois corpos incendiados. Emma e Adèle não economizam beijos e suculentas lambidas, os gemidos e os orgasmos vêm em profusão e enchem a tela até o esgotamento total das forças das duas mulheres. 


São cenas para se ver no escuro, na tela branca do cinema, e quem se incomodar com isso que busque urgentemente alguma ajuda psi. O diretor afirmou que quis filmar aquelas cenas como se elas lembrassem esculturas vivas, e creio que nisso foi bem sucedido, pois Emma e Adèle dão vida a Camille Claudel e a Degas. Ao menos para mim, nada disso pareceu artificial ou estetizante. Pelo contrário, acrescentou ainda mais um ponto à corajosa honestidade que alinhava o filme do começo ao fim. Sim, as cenas de sexo e amor são realmente intensas; mais do que cenas eróticas, vi-as como encenação de poderosas descargas elétricas, como acontecimentos físicos e psicológicos decisivos na vida das duas mulheres. E isso talvez incomode muita gente não acostumada a esse grau de honestidade no cinema e na vida. Enfim, goste-se ou não de toda aquela coreografia sexual, as cenas de sexo entre Adèle e Emma se impõem, assim como também se impõem as cenas de paquera no gramado do parque, no bar lésbico ou os beijos apaixonados sob uma frondosa árvore, o sol explodindo atrás das duas bocas. É mesmo o caso de perguntar quando foi que vimos beijos de amor mais deliciosos no cinema.http://okupacao.blogspot.com.br/2014/01/ainda-sobre-o-filme-tatuagem-de-hilton.html






Quanto ao mais, trata-se de um bom filme francês. Na primeira vez em que o assisti, algumas cenas me incomodaram. Vendo-o pela segunda vez, as mesmas cenas despertaram reação contrária, pois não mais as vi como confirmação de uma suposta adesão do diretor tunisiano ao esnobismo francês. Antes, pelo contrário, as tais cenas me pareceram então um belo e sonoro tapa na cara das manias e obsessões culturais francesas. Por exemplo, ao longo do filme todo há muitas cenas de escola, e muitas vezes elas são pedantes. No entanto, é preciso reconhecer que Adèle sai transformada de sua experiência escolar e por isso mesmo quer se tornar professora maternal, quer continuar a transmitir às crianças tudo aquilo que jamais lhes chegaria por intermédio de suas famílias operárias. Na sua boca, essa frase constitui uma bela defesa do sistema escol
ar público francês, a ponto de fazer o padrasto burguês e esnobe de Emma reconhecer que, ao menos, a menina simples da periferia sabe exatamente aquilo que quer de sua vida. Por outro lado, também podemos nos perguntar de que terá valido tanto estudo e leitura, tanta ‘formação’ cultural, quando vemos as colegas adolescentes de Adèle promoverem cenas de agressiva lesbofobia.

Como em tantos filmes franceses, “Azul…” não descarta a ‘bavardage’, aquele famoso papo-furado, permeado por leve toque de arrogância. Mas, vendo novamente as cenas da festa em que Adèle alimenta e serve as amigas e amigos pedantes de Emma, estudantes de artes plásticas e marchands, a pretensão arrogante e vazia deles só engrandece a simplicidade de Adèle, que sabe o que quer e só faz o que quer. Mesmo o mau-gosto dos quadros de Emma não faz outra coisa senão expor sua intransigência ou falta de talento e, quem sabe, até mesmo seu oportunismo social, pois é digno de nota que ela somente consiga expor seus quadros horríveis na famosa galeria de Lille depois de trocar Adèle por uma jovem pintora burguesa e bem inserida socialmente.
Para além da opção estética de filmar os sentimentos e o silêncio lacônico de Adèle, outro traço notável deste filme reside em sua cuidadosa observação do abismo social que está predestinado a apartar as duas mulheres em algum momento. Emma é rica, seus pais são 'tolerantes' e aceitam suas namoradas, enquanto Adèle é cria da classe trabalhadora, de família ingênua e pragmática. Esse abismo de classe produz forte mau-estar no espectador, como nas cenas em que as jovens jantam nas casas dos respectivos pais. Na casa de Emma, esta se esquece de avisar aos pais que Adèle, menina pobre, não come ostras e frutos do mar, algo que ela sabia; é claro que este tinha de ser justamente o menú exclusivo do jantar... Ou então, na casa de Adèle, é evidente o constrangimento de Emma diante do prato de macarrão à bolonhesa, “simples, porém no ponto”, diz ela ao pai da outra. E tudo fica ainda pior diante da pergunta materna pelo que ela faz da vida. Ao declarar-se artista, a mãe de Adèle dispara: isso deve ser difícil hoje em dia, pintar quadros, pois “só os mortos ganham dinheiro”; ao que o pai emenda: “e o que faz seu namorado? É bom ter alguém que possa te sustentar e te dar segurança...”


Por fim, o trabalho da jovem, porém já experiente Léa Seydoux (Emma), e o da iniciante Adèle Exarchopoulos (Adèle), é mais do que excepcional. Nada na atuação delas é falso, nada é forçado, nada soa meramente convencional: ambas assumem e vivem seus papéis com total honestidade, apropriando-se deles. O que mais se poderia esperar de duas excelentes atrizes, muito bem dirigidas por Abdelattif Kechiche?


domingo, 14 de julho de 2013

Marcha das Vadias 2013

Marcha das Vadias 2013: a ironia como forma de luta



A Marcha das Vadias de Curitiba 2013 repetiu o sucesso das manifestações anteriores (2011 e 2012) e consolidou sua presença no cenário e calendário políticos da cidade. Agora todxs sabemos que o mês de Julho terá sempre um dia de sol e calor em pleno inverno, uma dádiva para todxs que vêm para as ruas e gritam em alto e bom som contra a violência que oprime mulheres, gays, lésbicas, travestis e transexuais, enfim, todxs que sofrem quotidianamente com a discriminação, a desigualdade e o machismo nosso de cada dia.



O movimento segue firme e forte, mantendo suas características de origem: a-partidário; organizado internamente sem hierarquias,  de modo horizontal; aberto a quem se comprometa com a pauta de lutas do coletivo; avesso a toda forma de discriminação de gênero; contra a clausura no interior de identidades sexuais bem definidas. Todas estas características fazem da Marcha das Vadias um coletivo libertário, criativo, anárquico, crítico, sarcástico, alegre, divertido e ultra-politizado. Política radical e sem sisudez, algo difícil de se encontrar nesse mundo. "O movimento é sexy", como dizia um cartaz. 


O improviso é a tônica das manifestações de rua: você traz seu cartaz ou se apossa de um dos tantos feitos previamente pelxs voluntárixs. Quem participa? Quem quiser combater o machismo e a violência: mulheres, homens, jovens, adultos, idosos, crianças... O clima festivo e alegre contrasta com as denúncias políticas: o estupro considerado como regra de tratamento das mulheres, o seu assassinato, assim como o de toda a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis)


Mas creio que o principal está na relação que cada um estabelece com seu corpo, transformado em arma de combate ao machismo e às hierarquias de gênero que abusam de todxs que, de um modo ou de outro, escapam a padrões normalizadores (e eles são muitos, os padrões e xs desviadxs e desviantes). 
Xs manifestantes da Marcha das Vadias extraem a potência de sua luta da inversão consciente de valores morais e políticos bem estabelecidos. Mulher tem de ser bem-comportada? Então elas tiram a roupa e gritam. Homem tem que ser másculo e viril? Então eles pintam as unhas e passam batom, negando publicamente a cultura do machismo em que foram criados. O corpo feminino é visto como um altar onde apenas um 'santo' pode reinar? Então elas gritam que o corpo é delas, lhes pertence e elas o dão apenas a quem quiserem e quando quiserem. Vadias são seres abjetos, de mínimo valor social? Então elas convertem a vadia na mulher forte e livre, dona de seu corpo e de seu prazer. O aborto segue proibido? Então elas exigem que a prática seja despenalizada imediatamente, que o Estado assuma sua laicidade e que a Igreja tire o rosário de cima de seus ovários. As mulheres e a população LGBT são as vítimas preferenciais da violência e da morte? Então elxs exigem respeito e se afirmam insubmissxs, inconformadxs. E por aí vai.

A Marcha das Vadias vale-se de uma estratégia política inovadora ao ocupar e politizar as ruas, expondo os corpos nus (ou vestidos) dxs manifestantes a fim de veicular mensagens políticas de denúncia de todas as formas de violência de gênero. Distintamente dos movimentos identitários de minorias, que tendem a privilegiar os canais burocráticos da representação política institucionalizada em sua atuação, a Marcha das Vadias faz da rua o local da política e do próprio corpo o suporte vivo de veiculação de uma outra relação entre vida e política: uma política da vida escandalosa ou da vida como escândalo político, que muito faz lembrar as considerações de St Foucault sobre as posteridades do cinismo.  


Tudo isto é muito importante e certamente ainda há muito mais o que dizer e pensar a respeito desse coletivo político importantíssimo. Gostaria de concluir essas considerações vadias ressaltando algo que chamou minha atenção desde o começo. Falo da ironia, da liberdade, do bom humor e da coragem de quem expõe o corpo nu para fazer frente a todas as violências que agridem, destroem, maltratam os corpos das mulheres e LGBTs. Um dos gritos de guerra mais explícitos a esse respeito é:  "Eu sou vadia de respeito! Pra vir pra rua, tem que ter peito!" Está (quase) tudo dito aí. Parece simples, mas não é. Desnudar-se no Brasil é um ato político de primeira grandeza, dada a carga de erotização publicitária e de violência sexista e moralista que inunda nossa cultura. 


E cumprir esse ato corajoso de maneira tão livre e espontânea, ironizando a violência e o preconceito, é algo que remete a um tempo passado quando a memória onírico-política das insurreições libertárias pós-68 ainda não tinha sido apagada pelo surto da AIDS e pela hegemonia mundial do neoliberalismo, entre finais dos 80 e começo dos 90. Eu sei, os tempos são outros, xs jovens que saem às ruas têm outros heróis e heroínas, outras pautas, e penso mesmo que são mais conscientes e ousados em questões de política feminista e de gênero do que o foi a minha geração, para a qual a política ainda tinha contornos e canais mais tradicionais e bem estabelecidos. 
Mas diante da cada vadia ou vadio que vejo desfilar pela rua lembro-me dos Dzi Croquettes (ver post neste blog); lembro-me também dos anos em que pertenci a um DCE de inspirações e práticas anarquistas, em que os meninos convocavam assembléias usando batom na boca, o mesmo batom utilizado nas sessões do Conselho Universitário da Unicamp, diante de um reitor atônito e profundamente irritado. Enfim, cada vez que vejo uma vadia ou um vadio passando ao meu lado, gritando a plenos pulmões, lembro que um dia também fui jovem, e vejo que algo da minha juventude ainda me acompanha. E isso me faz mais feliz.







sexta-feira, 12 de julho de 2013


Feminismo vadio

Gazeta do Povo em 12.07.2013

Em 2011, no Canadá, um grupo de mulheres saiu às ruas para gritar “basta!” à cultura da violência que, além do mais, faz das vítimas as culpadas pelas agressões: “Ninguém mandou se vestir como uma vadia!” Eis a lógica machista, que não apenas justifica, mas atenua e torna natural a violência. A cada dia milhares de mulheres são assassinadas, violadas, espancadas, humilhadas, apenas por serem mulheres. Os agressores são homens criados na cultura da violência e do machismo.
O movimento feminista sempre lutou contra tais violências, de modo que a novidade da Marcha das Vadias é sua estratégia do combate. Se a violência masculina culpa a mulher agredida, chamando-a de vadia, então será preciso inverter os sinais e fazer da denúncia da violência uma arma de afirmação do poder feminino. Foi assim que a Marcha das Vadias se apoderou do termo “vadia” e fez dele um poderoso instrumento de poder. A Marcha das Vadias que ocorre em Curitiba amanhã é a culminação de um conjunto de discussões, ações jurídicas, além de ações educativas nas escolas e universidades.
A Marcha é um multifacetário coletivo feminista de combate às violências de gênero, que atingem também a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Ela nos ensina que fazer política é ocupar as ruas e praças com corpos vestidos e desnudos, que se fazem presentes para exigir uma outra vida. Queremos poder transitar pelas cidades a qualquer hora, com qualquer traje, independentemente da orientação sexual, da identidade de gênero, do pertencimento de classe e raça/etnia, sem sermos violentadas, agredidas, mortas.
Também lutamos por direitos já tão restringidos e que correm o risco de ser retirados, como no caso do Estatuto do Nascituro, que faz do embrião um sujeito de direito e usurpa à mulher o direito conquistado de abortar em decorrência de um estupro. Para não falar na urgência de se legalizar o aborto e transformá-lo em prática segura. Por tudo isso, “se ser vadia é ser livre, então eu sou vadia!”
A vadia liberta é aquela que ama seu corpo como ele é e faz dele o suporte da denúncia de todas as violências. E é incrível que uma perna ou um seio à mostra sejam mais escandalosos que a despudorada tolerância com que cobrimos a violência que dilacera o corpo feminino. Algumas mulheres ainda se incomodam com a denominação de vadia, pois foram ensinadas a fugir dela a todo custo. O problema é que nunca houve para onde fugir do machismo, que tem de ser combatido invertendo-se as regras do jogo, embaralhando-se as cartas, dando-se as cartas. Não tardará e também elas se juntarão aos homens que já agora se afirmam feministas e “vadios”, participantes da Marcha. A luta das mulheres feministas é a luta de todos e todas que compreenderam a dignidade do combate à violência e à discriminação de gênero. Amanhã, a partir das 11 horas, venha para a Praça da (agora) Mulher Nua: uma “vida vadia” é mais alegre e interessante que ficar repetindo preconceitos e violências.
Maria Rita de Assis César, professora do Setor de Educação e do programa de pós-graduação em Educação da UFPR, é coordenadora do Laboratório de Investigação sobre Corpo, Gênero e Subjetividade na Educação (Labin).