terça-feira, 24 de julho de 2012

Texto de Maria Rita na Gazeta do Povo de 25.07.2012


Opinião

Terça-feira, 24/07/2012

SÍNTESES – O FUTURO DO FEMINISMO

OPINIÃO 1

O futuro já chegou


5
Publicado em 24/07/2012 | MARIA RITA DE ASSIS CÉSAR
Não é possível falar de feminismo e sim de feminismos. Feminismo liberal, materialista, estruturalista, pós-estruturalista, pós-moderno, pós-feminismo; um cardápio variado, como demandam as urgências do mundo. Uma história do feminismo? Não, o feminismo tem muitas histórias: vários passados, inúmeros presentes e infinitos futuros.
O feminismo está fora de moda? Ser feminista não tem mais sentido? Claro que não! O feminismo é luta social pela igualdade entre todos os gêneros (homens, mulheres, transexuais, travestis, transgêneros etc.), pelo fim da violência contra as mulheres e demais minorias sociais-sexuais. Mas o feminismo também é postura teórico-intelectual que ocupa um espaço importante na produção do conhecimento.
Para além dos movimentos feministas históricos e tradicionais, atuantes desde o início do século 20 com importantes conquistas, dentre as quais a luta pelo fim da ditadura militar no Brasil, os novos movimentos feministas trazem novos questionamentos. Por exemplo, a crítica da noção de identidade, pois feministas não são somente mulheres. Sim, o feminismo nasceu como luta das mulheres contra a desigualdade entre homens e mulheres, denunciando as violências de um mundo construído no masculino. Entretanto, atualmente alguns homens reivindicam outros papéis para a expressão de suas masculinidades. Mulheres e homens, heterossexuais, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis, trangêneros, todos e todas podemos ser feministas.
Os feminismos que recusam “a mulher” como sujeito do feminismo são responsáveis por novos pontos de vista acadêmicos e por novas formas de ativismo social. Esta é a origem dos movimentos sociais de inspiração queer. Queer é um velho adjetivo em inglês para designar pejorativamente homossexuais, tendo ganhado novo sentido político nas lutas da comunidade gay e lésbica e no universo intelectual contemporâneo. Os movimentos sociais de inspiração queer criticam e tensionam as noções de identidades sexuais fixas e vêm produzindo novidades importantes no campo das reivindicações de direitos das minorias sexuais e da denúncia da violência.
Movimentos como a Marcha das Vadias (no mundo todo), o Femen (no leste da Europa) e o La Barbe (mulheres que se manifestam usando barbas postiças na França) mostram as novas caras do feminismo. Além de denunciar a desigualdade e a persistente violência contra as mulheres, gays, lésbicas, travestis, transexuais e transgêneros, estes movimentos colocam em cena um corpo e uma sexualidade que não têm medo de se mostrar, funcionando como lugar de reivindicação e luta política. A exposição pública dos corpos nus, enfeitados e pintados com mensagens como “meu corpo, minhas regras”, “tire seu rosário dos meus ovários” e “lugar de mulher é onde ela quiser” dão novos sentidos políticos a todos/as que se autodenominam como vadios/as e tomam posse de seus corpos e das ruas das cidades. Do mesmo modo, mulheres mostram os seios levantando cartazes contra os rumos econômicos da Europa, ou ainda desfilam suas barbas postiças pelas ruas de Paris, interrompendo o fluxo normalizado de cidade que cala, violenta e assassina mulheres e outras minorias sexuais.
Os novos movimentos feministas mostram que fazer política no presente é colocar em cena o corpo e o desejo. Em outras palavras, o futuro do feminismo já chegou, politizando o corpo, a sexualidade e o desejo como marcas fundamentais da luta social e como matéria intelectual para muitos campos científicos.
Maria Rita de Assis César é professora do Setor de Educação e do programa de pós-graduação em Educação da UFPR.

Just Kids, de Patti Smith



Conheci a música de Patti Smith em meados dos anos 80, na universidade. Ela continuava sendo a musa do punk-rock em plena era pós-punk. Claro que não conhecia nada de sua história nem tampouco a música que ela já fizera desde meados dos anos 70. As informações não circulavam facilmente então, não havia you tube, mas o recado estava dado: Patti Smith era um sinal de que a distância entre o final dos anos 60 e meados dos anos 80 não podia ser medida cronologicamente. Os canais de comunicação ainda estavam abertos e era possível ouvir Velvet Underground, The Doors, Caetano, Gil, Gal Costa, Tom Zé e Jimmy Hendrix como se a música deles fosse contemporânea de The Cure, Bauhaus, Joy Division, David Bowie, etc. Não falo dos estilos musicais, mas daquilo que sempre constituiu a história do rock: rebeldia. Nessa perspectiva, Patti Smith era um elo de ligação sobrevoando o tempo dos relógios.



Conheci a obra fotográfica de Robert Mapplethorpe em meados dos anos 90, quando morava e estudava em Nova York. Já eram outros tempos: a AIDS e o neoliberalismo haviam cortado os elos de comunicação entre fim dos 60 e o fim dos anos 80. O próprio Mapplethorpe simbolizava tragicamente esse fim, assassinado prematuramente em 89, mais uma vítima da epidemia do HIV.


De todo modo, sua obra falava justamente desse mundo que desaparecera, o mundo da experimentação com o corpo, com a sexualidade, com o prazer e a dor de existir na contramão da história. Dentre as fotos que vi, me impressionaram aquelas sobre as experiências sado-masoquistas de Robert e de seus companheiros pela noite escura dos clubes S/M de NY, transformadas em arte da mais clássica sobriedade e equilíbrio formal.



Graças a Just Kids, o premiado livro de memórias escrito em 2010 por Patti Smith, descobri que ela e Mapplethorpe foram muito mais que namorados, amantes e amigos, pois fizeram de sua relação uma fonte contínua de inspiração para suas criações artísticas. Fidelidade à arte, eis o que os uniu em 1967 e os manteve unidos mesmo depois que Mapplethorpe mergulhou de cabeça no universo homossexual.
Descobri o livro por acaso. Voltava de Paris e a perspectiva de passar mais de 10 horas em claro me levou à ótima livraria gay do Marrais, Les mots à la bouche. A fotografia da capa chamou minha atenção imediatamente. Patti e Robert estão no parquinho de diversões de Conney Island. Antes que se instaurasse a ditadura da moda, era preciso criar-se e recriar-se com o que se podia garimpar aqui ou ali. Patti usa roupas claras e uma faixa no cabelo liso e negro, calças jeans arregaçadas de quem molhou os pés no mar gelado; é mais uma dentre tantas outras garotas hippies de 1970. Robert é meticuloso: chapéu negro, casaco negro, calça jeans escura e camiseta negra treliçada, deixando ver o branco do corpo magro realçado pelo lenço branco ao pescoço. Juntos, são a imagem de uma juventude disposta a revolucionar a cultura, mesmo que ainda não saibam como. Têm pouco mais de 20 anos e são dois desconhecidos tentando a vida em NY, enfrentando estoicamente a fome, a pobreza e a incerteza. Sabem apenas que querem ser artistas. 
Patti encara a câmera com seriedade, como quem desafia corajosamente o presente e o futuro; Robert, com o sorriso discreto de quem sabe que um dia triunfará. A história dos dois está contida nessa fotografia tirada por um senhor em seu velho lambe-lambe. Patti é um reservatório de energias em ebulição, mas ainda desconhece o uso possível de toda a força rebelde que vai se acumulando dia a dia em seu corpo magro. Robert já encarna a liberdade soberana do rebelde que combina ousadia desabusada e sensibilidade clássica: impossível não se deixar cativar por ele.

O livro vale a pena por muitos motivos. É uma bela descrição da louca e decadente NY nos anos 60-70, época da Factory de Andy Warhol e do celeiro de criação que foi o Chelsea Hotel; é o diário cativante de dois jovens tentando definir artisticamente seus destinos, quase às cegas: aos 20 e poucos anos, Robert nunca tirou uma fotografia e Patti nunca cantou ou compôs música! O livro é também um retrato do amor para além da amizade e do romance juvenil, uma aposta na fidelidade acima de todas as circunstâncias, incluindo-se a morte.
É, enfim, um relato nostálgico e belamente escrito por alguém cuja voz madura relembra todas as incertezas e dificuldades por que passaram os dois jovens de origem católica, loucos por arte e por tornarem-se artistas, mas desprovidos de qualquer apadrinhamento ou apoio econômico em seus começos.


Será que a publicação desse livro sinaliza um reatar de laços entre a rebeldia criativa dos 60-70 e o século que se inicia? O mais provável é que não. O tempo não volta para trás e vivemos hoje noutro mundo.
Mas agora que o neoliberalismo entrou em crise e que o fantasma da AIDS parece menos assustador, já é novamente possível reavaliar o potencial criativo e disruptivo dos anos 60-70. Talvez assim também seja possível começar a avaliar as novas ondas estético-políticas que começam a se formar no horizonte do presente. Será que já não somos testemunhas de novas correspondências temporais entre presente e passado, para além do tempo dos calendários?


Finalmente: o livro foi traduzido para o português pela Cia das Letras. Não sei quanto vale a tradução, mas o título escolhido me parece desastroso: Só garotos não vale como tradução de Just kids; melhor teria sido deixar o título no original, como fizeram os franceses...

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Marcha das Vadias em Curitiba 2012

Escrevo com a memória ainda fresca, repleta das cenas, depoimentos, cantos e gritos coletivos, banhados pela morna e bela luz invernal que realçou corpos-mensagem, cartazes e bandeiras durante a manhã do dia 14/07/2012. Em certo sentido, nada haveria que acrescentar. As fotografias da Marcha das Vadias de Curitiba, imediatamente divulgadas pela mídia e por diversas redes sociais, falam por si mesmas; os corpos nus e suas inscrições são auto-explicativos: "Não é sobre sexo, é sobre violência", dizia um corpo. "Meu corpo, minhas regras", dizia outro. "Entre homem e mulher, só o coração deve bater." "Ei, machista, gozar é uma delícia!". "Estão nuas e cobertas de razão".
Se escrevo ainda alguma coisa é apenas para tentar traduzir o que se encontra subentendido nessas mensagens políticas da epiderme.
A Marcha das Vadias mostra-se singular em relação a outros movimentos de mulheres e minorias. Por certo, há semelhança no plano dos discursos e das reivindicações. Mas há diferenças interessantes. O movimento começou em 2011 com jovens mulheres feministas canadenses, que resolveram enfrentar as estratégias de responsabilização das vítimas da violência masculina: "se são violentadas é porque se vestem como vadias (slut)...", disse um policial. Donde o Slutwalk, a marcha das vadias. O movimento se internacionalizou rapidamente e é sempre organizado por coletivos ou grupos de feministas. No Brasil, um aspecto interessante é que os participantes da Marcha das Vadias não se definem pelo recurso a uma identidade determinada. Vadias somos todxs! Cabe todo mundo: homens e mulheres, jovens, adultxs e idosxs, homossexuais, lésbicas, heterosexuais, transsexuais, travestis e quem mais assumir o feminismo e a atitude queer, reunindo crítica, política, ironia, coragem, criatividade e despudor. O caráter artesanal dos cartazes, a pintura tosca nos corpos, a ironia derrisória, tudo isso compõe um clima anárquico, divertido e anti-normativo, que caracteriza e distingue a Marcha no Brasil.
Mas talvez a principal diferença em relação a outros movimentos de minorias esteja em que a Marcha das Vadias, no Brasil e em outros lugares, pratica uma política corporal, isto é, uma política do corpo ou uma política como corpo-a-corpo no espaço público, disseminando imagens poderosas pelas redes virtuais e pela mídia eletrônica. Seu lema parece ser: se o corpo é o lugar privilegiado de inscrição de múltiplas formas de sujeição e violência, seja então o corpo uma arma de combate político cotidiano: "Machismo, racismo e homofobia: a nossa luta é luta todo dia".
A marcha simboliza a luta da vida nua que promove um curtocircuito nos sistemas biopolíticos hegemônicos de dominação heteronormativa, revertendo a fragilidade do corpo nu em força político-simbólica. Política como desconstrução da heteronormatividade. Dito assim parece complicado, acadêmico demais, mas na verdade a coisa é bem simples e tem tudo a ver com nosso cotidiano: o corpo, a sexualidade, o prazer, o gênero, a reprodução e sua interrupção, os amores e as amizades, tudo isso é regrado por normas que ditam o que pode e o que não pode; quem pode e quem não pode; aonde pode e aonde não pode; quando pode e quando não pode. E todas essas normas são garantidas e reproduzidas por homens e por mulheres que pensam-e-se-comportam-como-homens. Aos 'a-normais' a violência, o desprezo, o escárnio, a incompreensão, a morte.
Contra a hegemonia do poder normativo masculino, patriarcal, a Marcha das Vadias promove a manifestação dos corpos desviantes, desviados, os corpos que falam, gritam e exigem, os corpos que se exibem, se divertem, se beijam e se abraçam publicamente, escandalosamente. Política da vida escandalosa ou vida como escândalo político? Tanto faz. O que importa é que cada manifestante imponha a si mesmo uma transformação no modo de despir ou vestir seu corpo e suas ideias, alterando seu modo de existir e conviver com os demais.
Contra a violência que assassina, mutila e traumatiza, a coragem dos corpos que não se escondem, mas vibram e faíscam ao aparecer em praça pública.
Contra o silêncio que cala e oprime, a crueza barulhenta dos corpos insubmissos que denunciam: 13 mulheres são agredidas por dia em Curitiba, para ficarmos com as estatísticas oficiais do quarto estado brasileiro onde mais se cometem violências contra as mulheres.
Contra os corpos publicitários e domesticados, os corpos desordeiros que não respeitam qualquer padrão de beleza previamente estabelecido.

Contra o bom comportamento do cidadão exemplar, os corpos que provocam, que chamam a atenção, pois não esperávamos vê-los ali, no meio da rua, dando novo ar e novas cores à cidade, arco-iris em dia de céu aberto.

Contra a força-bruta dos espancadores e estupradores, a força leve e móvel dos corpos que protestam enquanto se alegram e vice-versa.
Contra a intolerância masculina, laica ou religiosa, familiar ou anônima, a beleza dos corpos nus que param o trânsito e incomodam os conservadores de plantão. Enquanto os irritados buzinam freneticamente, as vadias exibem seus cartazes e sorriem na manhã de sábado: "Lugar de mulher é onde ela quiser".

Contra a pasmaceira da opinião pública, corpos de homens e mulheres que desconcertam os bem-pensantes, os mal-pensantes e os 'bons' militantes das políticas de minorias, que em geral não dão as caras por ali. Devem pensar: "não fomos nós que concebemos e organizamos o movimento, então ele deve ser politicamente incorreto. Pra não dizer que ele é  politicamente arriscado, pode chocar a opinião pública, ai ai ai...."

Os corpos nus das vadias se organizam autonomamente, conduzem o movimento  das páginas das redes sociais virtuais para as ruas da cidade e são então seguidos de perto por PSOL e PSTU, a despeito de muitos participantes pensarem que nenhum partido os representa.  
A Marcha das Vadias exige a implementação de ações políticas relativamente simples, mas que parecem inaceitáveis para a pequena política partidária machista: direito à igualdade entre homens e mulheres em todas as dimensões da vida; criminalização da discriminação e de todas as formas de violência de gênero e contra a orientação sexual; liberdade para abortar no sistema de saúde público; políticas de minorias que garantam a todxs a liberdade de ir e vir vestidx como quiserem, com quem quiserem, sem serem molestadxs ou agredidxs. Respeito à diferença, sempre. Será tão difícil de entender? Será tão difícil de implementar tais demandas? Parece que sim. Por isso a luta é contínua, noite e dia, faça chuva ou sol, frio ou calor.
A Marcha das Vadias dá voz àquelxs que a política institucional simplesmente ignora, deixando-xs expostxs à repulsa e à agressão.
Vadias e vadios resignificam a linguagem e os preconceitos ordinários. "Meu cu é meu!" Tautologia que ainda se faz necessário reiterar.
Vadia, vadiar, vadiagem, viadagem...viagem de corpos que carnavalizam e re-politizam a rua, o sexo, a moda, o amor, os bons costumes.
Para alguns, mera desordem passageira; para outros, perda de tempo de quem tem tempo a perder, "bando de filhinhos e filhinhas de papai alvoroçando o espaço público de maneira irresponsável..." Há também os que sentem tremer os pilares de seu mundo medíocre e reagem com mais violência. Pior para todos eles. Pois é por aí mesmo que segue e seguirá a micropolítica neste século 21, politizando corpos e espaços que antes permaneciam silenciosos ou apolíticos. 
A Marcha das Vadias manifesta sua força pela disseminação de imagens e linguagens que falam mais alto e mais claro que mil palavras e discursos bem-comportados. O movimento encarna a força simbólica da perturbação da ordem, desorganizando ideias e produzindo efeitos duradouros de contaminação, por meio da perfuração da cútis patriarcal. Piercing político.
A Marcha das Vadias luta por um mundo mais alegre e igualitário, um mundo menos violento. E você, de que lado você está?


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Melancolia, de Lars von Trier: um filme na contramão da história


Sim, um filme na contramão da história, corajoso e belo. A começar pelo fato trivial de que não é um filme para se ver em casa. Esqueça sua tevê de plasma acoplada ao 'home theater' e vá ao cinema, como manda(va) o figurino. É preciso tela grande e som potente para desfrutar como se deve da bela fotografia e da música de Wagner, que atua como personagem e alinhava o filme do começo ao fim.
Melancolia segue a mesma vertente estética de Anticristo, fundindo alguns poucos princípios remanescentes do grupo Dogma, como câmera na mão e exploração de closes que capturam a alma dos atores em cena, à composição de imagens altamente estetizadas, em câmera lenta ou mesmo estáticas, belamente coloridas e adornadas por música erudita.
Como no filme anterior, trata-se de uma alegoria e os personagens encarnam protótipos. Em Anticristo o tema era o mal, a crueldade em sua associação à figura feminina da bruxa, em oposição à ciência moderna (psicologia) encarnada na figura masculina; agora trata-se do fim do mundo como alegoria da morte, da qual até hoje ninguém escapou. Por isso, o fim do mundo de von Trier nada tem que ver com os conhecidos chavões do cinema catástrofe. Novamente, os personagens representam posições ou possibilidades humanas de nosso tempo diante do fato inevitável da morte.
Semelhante a Anticristo, o filme se divide em prólogo e duas partes, cada uma delas dedicada a um dos personagens femininos que predominam, Justine (magnificamente interpretada por Kirsten Dunst, tendo-lhe valido o prêmio de melhor atriz em Cannes) e Claire, belamente interpretada por Charlotte Gainsbourg, protagonista do filme anterior.
O prólogo dá o tom do filme e prepara o espectador para as cenas que assistirá: a primeira cena, já sob o fundo da música wagneriana, é uma fotografia de Justine vestida de noiva, profundamente deprimida; seguem-se outras imagens que reaparecerão ao longo do filme, todas em câmera lenta, com ênfase no asteróide 'Melancolia' em sua aproximação da Terra. Cenas como essas não podem ser vistas na televisão.
A parte dedicada a Justine trata de seu casamento, em particular, das formalidades festivas meticulosamente cuidadas por Claire e custeadas pelo dinheiro de seu marido cientista, bem interpretado por Kiefer Sutherland. Tudo se passa num castelo em propriedade rural, afastado da cidade, o que faz da natureza um personagem a mais do filme, como, aliás, já ocorrera em Anticristo.
A primeira parte recorda a temática dos conflitos familiares, tão bem explorada por outro cineasta dinamarquês em Festa de família (1998), de Thomas Vinterberg, também filiado ao grupo Dogma. Mas há muito mais do que a revelação pública das fragilidades e canalhices pessoais, pois a noiva está profundamente deprimida, enquanto os convivas e o noivo se comportam como se nada estivesse acontecendo, ao passo em que Claire e seu marido se desdobram para manter as aparências.
Mas, que aparências precisam ser mantidas? Não se trata apenas de preservar a boa ordem familiar, à la Bergman; é preciso manter a boa ordem em face do risco extremo da morte, do fim do mundo. Enquanto se desenrola o fiasco do casamento, o asteróide se aproxima. Ninguém parece dar muita atenção ao fato, mas Juliette permanece intrigada, talvez fascinada, talvez consciente demais de tudo que está por ocorrer. E não consegue representar a felicidade comprada com o dinheiro do marido da irmã.

A parte dedicada a Claire encena seu cuidado e preocupação diante da depressão que acomete a irmã, bem como seu horror diante da iminência da morte provocada pelo possível choque do asteróide. São belas as cenas em que ela cuida de Justine, completamente abatida por uma depressão que lhe desfigura o rosto e o corpo. Nesta parte do filme cresce também a importância do personagem masculino, que uma vez mais encarna a ciência moderna e sua exigência de cálculos destinados a garantir que tudo seguirá bem, nada de mal acontecerá e todos seguirão felizes para sempre.
Quando finalmente todos compreendem que a trajetória do asteróide 'Melancolia' tem um alvo certo, o filme expõe as diferentes possibilidades humanas diante da morte inevitável. Justine se entrega com volúpia ao asteróide em uma cena memorável: seu corpo, antes frágil e debilitado, agora exibe um vigor tátil deslumbrante, resplandecendo na relva sob a luz da lua.
Claire é a imagem do pânico e da ansiedade e as cenas em que ela corre desnorteada com o filho pequeno nos braços, tentando protegê-lo da catástrofe sob forte chuva de granizo, são desesperadoras. A atitude do marido cientista é de total covardia: às escondidas, suicida-se tomando todos os comprimidos que Claire havia escondido para a eventualidade do choque com a 'Melancolia' ser de fato inevitável.
Nesta segunda parte, Justine simboliza a coragem e a lucidez não científica, existencial. Ela diz "saber coisas", mesmo sem poder explicar porque as sabe; em particular, ela sabe que todos estamos sozinhos e que a morte é inevitável. E é apenas por ser detentora desse saber que ela pode ajudar a irmã e seu filho pequeno a enfrentar a violência do fim, armando uma estratégia sabidamente inútil, mas que ao menos reconforta a criança.

Um filme na contramão da história, na contramão de nosso presente, ávido de bom-mocismo científico e regado a felicidade comprada.
Quem quiser mais informação, em inglês, pode acessar http://www.melancholiathemovie.com/
http://youtu.be/wzD0U841LRM

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

La piel que habito, Almodóvar

Há vários anos Almodóvar assumiu o raro posto de cineasta autoral, com pleno domínio de sua linguagem narrativa e estética. La piel que habito não escapa à regra, embora seja um filme inquietante, em que as velhas temáticas se encontram com novos problemas. Está lá a destreza narrativa, por exemplo, que permite ao diretor começar o filme no meio da ação, voltar ao passado para depois retornar ao presente, neste caso, o ano futuro de 2012. Garante-se com isso a atenção do espectador, que tem de reconstruir a estória que está sendo contada. Estão lá os velhos atores de sempre, como Marisa Paredes e Antonio Banderas. Está ali a música, que atua como personagem (ela é responsável por certos acontecimentos decisivos no filme) e como fio condutor da narrativa. Está lá o drama familiar, a loucura do amor e de sua perda, as obsessões amorosas, etc. Encontra-se ali, finalmente, a temática recorrente sobre a instabilidade das identidades sexuais e de gênero.
Mas agora acrescenta-se um problema novo: a ciência e o desejo de produzir um corpo à imagem e semelhança de outro corpo, já perdido. E é justamente com a intervenção da ficção científica que o filme assume um ar inquietante, claustrofóbico e violento. Se os filmes anteriores mostravam o gosto de Almodóvar pelo travestismo, agora essa temática é levada até seu extremo mais radical por meio de cirurgias capazes de transformar e reconstruir completamente o corpo de uma pessoa. O tema é atualíssimo e permanecerá conosco por muitos e muitos anos.
Mas enquanto nos filmes anteriores a transformação e a instabilização das relações de gênero e de identidade sexual eram liberadoras, operando como um sopro de ar fresco em meio à monotonia da heterossexualidade normativa, agora o procedimento assume contornos incertos, assustadores. Como habitar uma pele que não me pertence? Como posso viver num corpo que não é meu? Quem sou eu, quando habito um corpo que me foi implantado? Eis as questões que esse filme impactante propõe aos espectadores. Em tempo: esqueçam essa história de primeiro filme de terror de Almodóvar! Mesmo em seus momentos mais sombrios, Almodóvar é Almodóvar e jamais perde a mão.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Resenha do livro de Benedito Nunes, Ensaios Filosóficos, publicada na CULT 156


Benedito Nunes, ou a arte do ensaio

A morte de Benedito Nunes em 27 de fevereiro passado deixa grande vazio na cena intelectual brasileira. Em longa e fértil trajetória de pensamento, Benedito Nunes foi expoente maior da tradição ensaística nacional, reunindo em seus textos primorosos rigor acadêmico e estilístico, condensados numa prosa elegante e acessível ao leitor, façanha rara no ambiente acadêmico, tão inclinado ao hermetismo, quando não ao pedantismo.
Com organização e apresentação de Victor Sales Pinheiro, a editora WMF Martins Fontes lançou recentemente Ensaios Filosóficos, coletânea que abarca vinte e um ensaios publicados entre 1960 e 2004. Os textos percorrem a história da filosofia de Platão a Paul Ricoeur, passando por Hegel, Nietzsche, Heidegger, Husserl, Gadamer, Sartre, Foucault e Hannah Arendt. Temos aí excelente síntese dos interesses filosóficos que marcaram a reflexão de Benedito Nunes, singularizada por abordagens em que temas centrais da fenomenologia, da hermenêutica e da estética são abordados a partir de seu entrelaçamento e confluências. Em artigos bem tramados e estratificados em diversas camadas de sentido, capazes, portanto, de interessar ao especialista e ao leitor não iniciado, Nunes discorre sobre as interações entre poesia e filosofia, sobre as relações entre narrativa histórica e ficcional, sobre os aportes da hermenêutica para a teoria social, bem como sobre a articulação entre filosofia, memória e tempo. Em cada um dos textos, o autor sempre toma a reflexão sobre a linguagem e seus meandros como foco privilegiado de consideração. Assim, no ensaio “Poesia e Filosofia: uma transa”, de 1999, Nunes afirma que o “movimento de vaivém da filosofia à poesia e da poesia à filosofia remonta à compreensão preliminar, linguageira, do ser no meio do qual nos encontramos.” (p.17) Se é certo que “o ensaio pensa em fragmentos”, como afirmou Adorno, citado por Victor Sales Pinheiro em sua apresentação, também é verdade que os ensaios de Benedito Nunes possuem grande coerência temática e de estilo, aliando clareza analítica e erudição, manifestos em discussões precisas e panoramas teóricos que situam a gênese histórica das questões abordadas.
Fiel à sua formação fenomenológica e hermenêutica, mas sem jamais ceder ao sectarismo, Benedito Nunes, sobretudo em seus ensaios dos anos 60, atuou como importante embaixador cultural, introduzindo e analisando para o leitor brasileiro, em primeira mão, as principais referências teóricas da cena intelectual francesa de então. Assim, a publicação da Crítica da Razão Dialética, de Sartre, suscitou imediatamente largo ensaio, no qual Nunes discutiu a inflexão marxista que então marcava o projeto fenomenológico-existencial do autor de O ser e o nada. Nesse mesmo período, Benedito também nos transmitiu seu testemunho e opinião a respeito das discussões provocadas pela publicação da peça teatral sartreana, Os sequestrados de Altona. Já no interessante ensaio “Vertentes”, de 1969, Nunes sistematizou as tensões e divergências teóricas que agitavam o pensamento francês, em meio à contraposição entre fenomenologia (Merleau-Ponty), existencialismo marxista (Sartre), estruturalismo (Lévi-Strauss) e o projeto arqueológico de Michel Foucault, de quem o autor nos oferece uma perspicaz discussão acerca das continuidades e transformações teóricas entre As palavras e as coisas, de 1966, e a então recém publicada Arqueologia do Saber, discussão em meio à qual ele ainda mencionava o Diferença e Repetição, de Deleuze. O sismógrafo de Benedito Nunes sempre esteve atento aos abalos e deslocamentos teóricos provocados pelas obras-mestras do pensamento filosófico contemporâneo, e a presteza com que ele discutiu as teses centrais dos três volumes de Tempo e Narrativa, dentre outros textos de Ricoeur, em 1988, pouco depois de sua publicação, mostra bem que seu vigor em nada esmoreceu com o tempo.
Para concluir, observo que os ensaios dos anos 60 e 70 foram publicados nos suplementos culturais dos principais jornais brasileiros. Menciono este fato porque hoje isto seria quase impensável, dada a triste política editorial que vem promovendo a sistemática banalização da linguagem e do pensamento em nome de interesses mercadológicos que subestimam a inteligência do leitor. Por sua vez, o mecanismo perverso se retroalimenta quando o leitor, já mal acostumado, esquiva-se de qualquer matéria que lhe apresente dificuldade ou maior exigência reflexiva. Vai se perdendo assim o intercâmbio entre o intelectual, as obras filosóficas e o público letrado, nexo tão bem cultivado por Benedito Nunes, para quem “só a incessante leitura das obras filosóficas, na perspectiva do mundo atual, poderá, para nós, estudantes de filosofia, reacender o perdido fulgor público da ação do pensamento, pois que a leitura dessas fontes também age sobre nós no plano moral.” (p. 41). Felizmente, contra a esterilidade intelectual de boa parte da mídia contemporânea, esta revista constitui importante esteio.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Artigo na Gazeta do Povo do dia 07.02.11

A “folclorização” da desigualdade

Publicado em 07/03/2011 | MARIA RITA CESAR

Temos, como tantas outras, uma data a mais neste calendário “folclorizado” que se esqueceu da história política. É importante ressaltar que o dia 8 de março só faz sentido se lembrado no interior das lutas feministas do passado e do presente

Neste 8 de março de 2011 teremos uma importante conquista a ser comemorada. O Brasil tem sua primeira “presidenta”. Uma mulher com trajetória política própria, não a “esposa”, “mãe”, “filha” ou “afilhada” de um homem político que estendeu seus tentáculos de poder.

Em seu primeiro discurso Dilma fez uma declaração feminista e agora uma garotinha poderá sonhar em ser presidenta da República. Entretanto, um século após as primeiras celebrações do dia internacional da mulher, ainda há muita desigualdade e violência. A origem da data é um pouco incerta, decorre em especial das manifestações de mulheres trabalhadoras na Rússia, consideradas um dos estopins da revolução russa (1917). Também o incêndio que matou centenas de trabalhadoras em greve na fábrica Triangle, em Nova York (1911), é uma data a ser lembrada.

As várias origens convergem para reivindicações de mulheres por uma vida menos desigual e mais digna. O movimento feminista reavivou a data no conjunto das suas lutas, na década de 60, lembrando que as mulheres há muito lutam por igualdade e dignidade. No interior dos processos de despolitização da sociedade, o 8 de março se tornou apenas mais uma data comemorativa que vende rosas e bombons para chefes, companheiros e namorados “sensíveis”.

Temos, como tantas outras, uma data a mais neste calendário “folclorizado” que se esqueceu da história política. É importante ressaltar que o dia 8 de março só faz sentido se lembrado no interior das lutas feministas do passado e do presente. Temos razões para comemorações? Por um lado, sim – além da Presidência da República, a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), criada em 2003, e a criação de políticas educacionais que combatem a desigualdade de gênero.

Por outro lado, não há razão para comemorações – a violência contra as mulheres continua fazendo suas vítimas, muitas delas fatais, há muitas mulheres ainda sem acesso aos equipamentos básicos de saúde e educação, e o corpo feminino permanece um território de tutela política e jurídica masculina, impedindo que as mulheres possam realizar livremente suas escolhas.

No cruzamento com outros marcadores como raça/etnia, classe e orientação sexual, sabe-se que contra as mulheres negras, pobres, lésbicas, a desigualdade e a violência é ainda maior. Celebrar o dia 8 de março? Talvez, se for possível a restituição do caráter político das lutas feministas que deram origem à comemoração e ainda inspiram o combate à desigualdade e violência.


Resenha de meu livro na CULT 155