quinta-feira, 6 de maio de 2010

Quando o ato de ler pode não guardar qualquer relação com a cultura...

Fulana lê muito..., sicrano não consegue deixar um livro... ou, em apenas um mês beltrano leu 5 ou 6 livros... Não é necessário duvidar dessas afirmações. Para um país ainda pouco letrado como o nosso, elas poderiam significar uma mudança radical nos rumos dos processos de escolarização e aquisição de cultura. Entretanto, ao nos depararmos com as listas de livros mais vendidos, fornecidas por revistas e periódicos também bastante suspeitos em relação à cultura, como, por exemplo, a Revista Veja, encontramos o pior dos piores, isto é, Dan Brown e seus sucedâneos, além de auto-ajuda para todos os gostos, ensinando desde rezar, até comer e amar... Pior para nós, que estamos aprendendo a ler: nunca se leu tanto nesse país, mas da maneira mais esquálida possível. Não se trata de um fenômeno brasileiro, pois tais livros são publicados e vendidos em avalanche pelos mercados do hemisfério norte. Na década de 90, quando a classe média brasileira começou a viajar para Paris e Nova York e encontrava nos transportes metropolitanos pessoas com os rostos enterrados em literatura (?), se espantava: Olha só como lêem os franceses! exclamavam. Entretanto, já então não se sabia mais se liam Proust ou Paulô Coelhô. Gostar de ler é uma coisa, tem gente que adora ler bula de remédio...; agora, gostar de literatura é outra coisa, e uma coisa não tem nada a ver com a outra. Vai aqui um convite para se ler de verdade, pois a história da literatura já nos brindou com tanta coisa... Tudo bem, se não quiser não precisa ser um Joyce, mas entre os clássicos tem Balzac, Kafka e Virginia Woolf, entre outros/as. Há também os nossos autores nacionais contemporâneos, excelentes, como Milton Hatum, entre outros/as. Porque então insistir em ler simulacro de literatura??? Fica também a dica de leitura dos textos biográficos de Simone de Beauvoir – Memórias de uma moça bem comportada, Força da idade e Força das coisas. Leitura de cabeceira, saborosa e repleta de informações sobre a intelectualidade francesa e européia dos anos 20, 30 e 40, além de tratar-se de um texto auto-biográfico de grande qualidade literária.

8 comentários:

  1. de acordo, mas não compreendo de todo a escolha da imagem

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  3. O post é sobre a voracidade ingênua dos leitores contemporâneos, (des)orientados por inúmeros preconceitos. Dentre eles encontra-se, por exemplo, a idéia vaga de que celebridades são pessoas não cultivadas. De certa forma, este preconceito alimenta a indústria dos livros e manuais de auto-ajuda, que vive de propagar a ilusão de que qualquer um pode se transformar no 'astro' ou 'estrela' de sua própria vida. Bastaria, para isso, seguir umas tantas regras de conduta propostas pelos inúmeros manuais, muitos deles escritos por celebridades. A fotografia é provocativa na medida em que brinca com esses estereótipos. Afinal, quem disse que Marylin ou Norma Jeanne (não sei exatamente quem aparece na foto) não poderiam ler Joyce?

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  4. Lucas Lazzaretti9 de maio de 2010 19:03

    Concordo que há uma banalização da literatura feita pelos meios de comunicação de massa. Voltarmos os olhos para escritores como Joyce é de fato magnífico. Deixar se levar por um livro como "A portrait of the Artist as a young man" é fantástico. A literatura que nos transporta, que vem como um turbilhão a nos gerar "perturbações" e "impressões" por um longo tempo, diferentemente das escritas que simplesmente são substituídas repetidamente sem nenhuma reflexão ou impressão, é a literatura que realmente deve ser lida. Assim, atentarmos para o que é magnífico como Stevenson, Rilke ou Guimarães Rosa é sempre necessário e prazeroso. Porém, resta uma pergunta que há tempo vem pulsando; conferir o caráter de literatura excelente para obras que há algum tempo existem me parece mais simples do que conseguir ler algo novo e identificar a mesma excelência, ou seja, somos nós capazes de identificar algo que surja em nosso tempos, sem o ante-aviso de ´"clássico"? somos nós capazes de reconhecer nosso próprio Joyce ou nosso próprio Faulkner?

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  5. Esta é uma questão complicada - especialmente no Brasil. Nunca se leu tanto no país, não só por questões de educação (temos menos analfabetos que em outros períodos históricos), mas também de economia (livro é artigo de luxo, as bibliotecas públicas brasileiras são raras e, portanto, crescimento da economia, como nos anos Lula, também é crescimento do mercado do livro). Porém, se não se pode falar em crise de leitura no Brasil - afinal de contas, nunca fomos um país de leitores, portanto o passado não teria como ser melhor -, talvez possamos pensar em decadência dentro de porções mais privilegiadas, nas classes com educação e poder aquisitivo. Você comenta a lista de mais vendidos da Veja. Já havia feito esta pesquisa antes no acervo digital da revista, tentando entender quando começa a história da "literatura" de auto-ajuda. Na primeira lista de mais vendidos da revista, de setembro de 1968, aparecem seis livros. Destes, estão lá, acredite se quiser: Projeto para o Brasil (Celso Furtado), Eros e Civilização (Marcuse) e Filosofia na Alcova (Sade). Marcuse fez muito sucesso em 68 - está em diversas outras listas de mais vendidos deste ano na Veja. Hoje, para que a lista não fique somente com "Auto-ajuda", a Veja faz uma lista em separado, somente com este tipo de "literatura"... Creio que não é o caso de se duvidar desta lista, até porque basta entrar numa livraria, de qualquer lugar do mundo, para saber o que está em destaque, o que vende mais. Talvez um dos problemas para a literatura, hoje, é que ela concorre com tantas outras opções para o tempo livre (não estou com a definição de Adorno na cabeça...), opções que não existiam 30 anos atrás (videogame, shopping, culinária, TV a cabo, Internet, etc, etc...), que sua existência ficou restrita a poucos intelectuais. Para bem ou para mal, a literatura não é um valor importante para os nossos dias. Milton Hatum deve vender não mais que 10.000 exemplares por lançamento – num país de 200.000 milhões de habitantes.
    Abraços, André Tezza

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  6. Caro Lucas,
    sua questão é oportuna, mas contem um perigo: a ideia de que não há mais grandes escritores no presente. Você pergunta, por exemplo, se sabemos encontrar no presente escritores que possuam a "mesma excelência" dos chamados clássicos. Aqui é preciso pensar historicamente. Clássicos são os autores que, em geral, passam pelo teste do tempo; poucas obras nascem clássicas, ainda que elas também existam. De todo modo, é importante não querer encontrar Kafkas, Joyces ou Guimarães Rosas em nosso tempo. Eles não existem mais, o que não quer dizer que não haja grandes escritores atualmente. Não devemos estabelecer critérios estéticos absolutos para julgar obras literárias que são intrinsecamente históricas. O importante é aprender a discriminar e julgar a produção atual, e para isso é importante também conhecer os clássicos. Não para comparar o atual ao clássico, mas simplesmente porque quem leu mais sabe julgar melhor, isto é, tem mais sentido histórico.

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  7. Caro André,
    de fato, o post era dirigido às classes médias e, em geral, às classes sociais com maior poder aquisitivo e bons níveis de educação formal, nossas classes supostamente 'ilustradas', por assim dizer... O problema não é apenas a multiplicação de formas de entretenimento que antes não estavam disponíveis em escala de massa. A coisa me parece mais grave: agora há uma tendência geral no sentido de que tudo se converta 'apenas' em entretenimento auto-edificante, quase sempre de baixíssimo nível. A literatura não poderia escapar a essa tendência geral. Mais importante do que a diversificação dos meios de entretenimento é a colonização da imensa maioria dos escritores e dos leitores pela potente indústria da auto-ajuda. Esse é o sintoma para o qual devemos prestar atenção, me parece, além da imensa crise nos padrões educacionais destinados a todas as classes sociais do país.

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  8. Esta discussão me interessa. Por um lado, revisitariamos a conhecida tensão entre a perspectiva frankfurtiana, que prescreve critérios bastante rígidos para avaliar o que pode passar a constar no elenco das obras de "alta cultura" e a perspectiva mais atual dos estudos culturais, que alerta para a possibilidade de formas mais popularizantes da cultura conterem elementos "contrahegêmonicos" e reflexivos... ( e de não inteletualizar exageradamente, e portanto, restringir demais, os prazeres da leitura). Por outro lado, coloca a questão sobre que tipo de literatura realmente circula, hoje em dia, no Brasil. Sobre este ponto, eu precisaria acrescentar que embora muita "coisa boa" de fora não chega a ser traduzida, ainda há muito que vale a pena ser lido (seja que algum dia chegue a considerarse "grande arte" ou não!) Dentre a safra de novas vozes brasileiras, li o romance de Sabrina Anzuategui (curitibana!) uns tempos atrás e me impressionou; quanto às traduções, tem muita coisa... Amos Oz, Kiran Desai, Hanif Kureishi, Nadine Gordimer, etc etc Eu particularmente mando meus alunos de sociologia direto para leitura de escritores e escritoras, @s contemporâne@s assim como @s do periodo modernista e outros. Claro que levo um susto inicial,sempre que pergunto se alguma vez leram a fulano/fulana e me olham com aquelas caras de estranhamento... Penso que para hacer a situação mudar, um lugar essencial para fazer nascer novas atitudes seria no ensino médio - se se pudesse mostrar para estes jovens, o prazer do (bom) texto.. abçs, Miriam

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