



Espaço livre de pensamento, crítica cultural e política. Num mundo de fronteiras bem delimitadas, okupação designa o ato de abrir e reinventar espaços de liberdade, pensamento e contestação.








A morte de Benedito Nunes em 27 de fevereiro passado deixa grande vazio na cena intelectual brasileira. Em longa e fértil trajetória de pensamento, Benedito Nunes foi expoente maior da tradição ensaística nacional, reunindo em seus textos primorosos rigor acadêmico e estilístico, condensados numa prosa elegante e acessível ao leitor, façanha rara no ambiente acadêmico, tão inclinado ao hermetismo, quando não ao pedantismo.
Com organização e apresentação de Victor Sales Pinheiro, a editora WMF Martins Fontes lançou recentemente Ensaios Filosóficos, coletânea que abarca vinte e um ensaios publicados entre 1960 e 2004. Os textos percorrem a história da filosofia de Platão a Paul Ricoeur, passando por Hegel, Nietzsche, Heidegger, Husserl, Gadamer, Sartre, Foucault e Hannah Arendt. Temos aí excelente síntese dos interesses filosóficos que marcaram a reflexão de Benedito Nunes, singularizada por abordagens em que temas centrais da fenomenologia, da hermenêutica e da estética são abordados a partir de seu entrelaçamento e confluências. Em artigos bem tramados e estratificados em diversas camadas de sentido, capazes, portanto, de interessar ao especialista e ao leitor não iniciado, Nunes discorre sobre as interações entre poesia e filosofia, sobre as relações entre narrativa histórica e ficcional, sobre os aportes da hermenêutica para a teoria social, bem como sobre a articulação entre filosofia, memória e tempo. Em cada um dos textos, o autor sempre toma a reflexão sobre a linguagem e seus meandros como foco privilegiado de consideração. Assim, no ensaio “Poesia e Filosofia: uma transa”, de 1999, Nunes afirma que o “movimento de vaivém da filosofia à poesia e da poesia à filosofia remonta à compreensão preliminar, linguageira, do ser no meio do qual nos encontramos.” (p.17) Se é certo que “o ensaio pensa em fragmentos”, como afirmou Adorno, citado por Victor Sales Pinheiro em sua apresentação, também é verdade que os ensaios de Benedito Nunes possuem grande coerência temática e de estilo, aliando clareza analítica e erudição, manifestos em discussões precisas e panoramas teóricos que situam a gênese histórica das questões abordadas.
Fiel à sua formação fenomenológica e hermenêutica, mas sem jamais ceder ao sectarismo, Benedito Nunes, sobretudo em seus ensaios dos anos 60, atuou como importante embaixador cultural, introduzindo e analisando para o leitor brasileiro, em primeira mão, as principais referências teóricas da cena intelectual francesa de então. Assim, a publicação da Crítica da Razão Dialética, de Sartre, suscitou imediatamente largo ensaio, no qual Nunes discutiu a inflexão marxista que então marcava o projeto fenomenológico-existencial do autor de O ser e o nada. Nesse mesmo período, Benedito também nos transmitiu seu testemunho e opinião a respeito das discussões provocadas pela publicação da peça teatral sartreana, Os sequestrados de Altona. Já no interessante ensaio “Vertentes”, de 1969, Nunes sistematizou as tensões e divergências teóricas que agitavam o pensamento francês, em meio à contraposição entre fenomenologia (Merleau-Ponty), existencialismo marxista (Sartre), estruturalismo (Lévi-Strauss) e o projeto arqueológico de Michel Foucault, de quem o autor nos oferece uma perspicaz discussão acerca das continuidades e transformações teóricas entre As palavras e as coisas, de 1966, e a então recém publicada Arqueologia do Saber, discussão em meio à qual ele ainda mencionava o Diferença e Repetição, de Deleuze. O sismógrafo de Benedito Nunes sempre esteve atento aos abalos e deslocamentos teóricos provocados pelas obras-mestras do pensamento filosófico contemporâneo, e a presteza com que ele discutiu as teses centrais dos três volumes de Tempo e Narrativa, dentre outros textos de Ricoeur, em 1988, pouco depois de sua publicação, mostra bem que seu vigor em nada esmoreceu com o tempo.
Para concluir, observo que os ensaios dos anos 60 e 70 foram publicados nos suplementos culturais dos principais jornais brasileiros. Menciono este fato porque hoje isto seria quase impensável, dada a triste política editorial que vem promovendo a sistemática banalização da linguagem e do pensamento em nome de interesses mercadológicos que subestimam a inteligência do leitor. Por sua vez, o mecanismo perverso se retroalimenta quando o leitor, já mal acostumado, esquiva-se de qualquer matéria que lhe apresente dificuldade ou maior exigência reflexiva. Vai se perdendo assim o intercâmbio entre o intelectual, as obras filosóficas e o público letrado, nexo tão bem cultivado por Benedito Nunes, para quem “só a incessante leitura das obras filosóficas, na perspectiva do mundo atual, poderá, para nós, estudantes de filosofia, reacender o perdido fulgor público da ação do pensamento, pois que a leitura dessas fontes também age sobre nós no plano moral.” (p. 41). Felizmente, contra a esterilidade intelectual de boa parte da mídia contemporânea, esta revista constitui importante esteio. 
Temos, como tantas outras, uma data a mais neste calendário “folclorizado” que se esqueceu da história política. É importante ressaltar que o dia 8 de março só faz sentido se lembrado no interior das lutas feministas do passado e do presente
Neste 8 de março de 2011 teremos uma importante conquista a ser comemorada. O Brasil tem sua primeira “presidenta”. Uma mulher com trajetória política própria, não a “esposa”, “mãe”, “filha” ou “afilhada” de um homem político que estendeu seus tentáculos de poder.
Em seu primeiro discurso Dilma fez uma declaração feminista e agora uma garotinha poderá sonhar em ser presidenta da República. Entretanto, um século após as primeiras celebrações do dia internacional da mulher, ainda há muita desigualdade e violência. A origem da data é um pouco incerta, decorre em especial das manifestações de mulheres trabalhadoras na Rússia, consideradas um dos estopins da revolução russa (1917). Também o incêndio que matou centenas de trabalhadoras em greve na fábrica Triangle, em Nova York (1911), é uma data a ser lembrada.
As várias origens convergem para reivindicações de mulheres por uma vida menos desigual e mais digna. O movimento feminista reavivou a data no conjunto das suas lutas, na década de 60, lembrando que as mulheres há muito lutam por igualdade e dignidade. No interior dos processos de despolitização da sociedade, o 8 de março se tornou apenas mais uma data comemorativa que vende rosas e bombons para chefes, companheiros e namorados “sensíveis”.
Temos, como tantas outras, uma data a mais neste calendário “folclorizado” que se esqueceu da história política. É importante ressaltar que o dia 8 de março só faz sentido se lembrado no interior das lutas feministas do passado e do presente. Temos razões para comemorações? Por um lado, sim – além da Presidência da República, a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), criada em 2003, e a criação de políticas educacionais que combatem a desigualdade de gênero.
Por outro lado, não há razão para comemorações – a violência contra as mulheres continua fazendo suas vítimas, muitas delas fatais, há muitas mulheres ainda sem acesso aos equipamentos básicos de saúde e educação, e o corpo feminino permanece um território de tutela política e jurídica masculina, impedindo que as mulheres possam realizar livremente suas escolhas.
No cruzamento com outros marcadores como raça/etnia, classe e orientação sexual, sabe-se que contra as mulheres negras, pobres, lésbicas, a desigualdade e a violência é ainda maior. Celebrar o dia 8 de março? Talvez, se for possível a restituição do caráter político das lutas feministas que deram origem à comemoração e ainda inspiram o combate à desigualdade e violência.
Assisti duas vezes ao belo documentário de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, Dzi Croquettes. O filme narra a trajetória do histórico grupo teatral que revolucionou a cena cultural paulista, carioca e parisiense a partir de meados dos anos 70. Desde os anos 90, quando a Aids e alguns assassinatos não resolvidos deram cabo à vida de vários integrantes do grupo, eles estavam praticamente esquecidos. O documentário recupera a memória do grupo e põe novamente em cena a transgressão de gênero que era central em suas apresentações. Por estes dois motivos, o documentário é mais do que oportuno e chega em boa hora.



Podemos dizer que os alunos vão mal em matemática porque os professores deles não sabem mais matemática, pois não aprenderam muita coisa nos seus cursos de bacharelado e de licenciatura
A notícia sobre o pagamento dos R$ 50 para que alunos assistam às aulas de reforço de matemática na Rede Estadual de Ensino de São Paulo produziu diferentes reações por parte de educadores. Nos jornais algumas reações de especialistas foram ouvidas: da indignada reprovação à medida até a sua aprovação, dizendo-se que seria um bom incentivo para o comparecimento ao reforço escolar. As notícias me fazem lembrar uma decadente Aracy de Almeida em programa de calouros; depois de ouvir uma interpretação horrorosa de algum sucesso do momento, ela dizia: “vai 50 mangos pro rapaz”.
O fato é que a Secretaria da Educação do estado de São Paulo prometeu que iniciaria a medida com 1.200 alunos do 6.º e 7.º anos, os quais, ao comparecerem às aulas de reforço, ganhariam até 50 reais de recompensa. Como afirmou o atual governador de São Paulo, Alberto Goldman (PSDB), o “vale-presente” iria diretamente para o estudante e não para a sua família. Certamente, uma alusão crítica ou “melhorada” ao projeto federal do Bolsa Família, que tem também o objetivo de convencer as famílias pobres da importância da escolarização de crianças e jovens. Embora as reações não tenham suplantado o exíguo espectro da aprovação/reprovação, dada a polêmica causada, a medida foi suspensa no momento.
Projeto de algum gênio ou derrocada absoluta da educação? Nem uma coisa nem outra, ou as duas coisas e ainda outras... O projeto foi pensado e planejado pela Secretaria de Educação de São Paulo, sob o comando do secretário Paulo Renato Souza, em razão dos resultados pífios dos alunos de São Paulo diante das avaliações institucionais (Prova Brasil, Provinha Brasil e outras pirotecnias contemporâneas). Com elas foi desvelado o grande segredo (que todos já sabiam) – “Joãozinho não sabe a raiz quadrada de 9”. Será que resta a nós, experts da área, apenas dizermos se somos contra ou a favor dos “50 mangos” pra meninada? Creio que não. Temos de olhar para isso como sintoma. Não como sintoma de alguma coisa que vai mal, mas como sintoma de alguma coisa que vai muito bem obrigado. A educação no Brasil é um sucesso como fábrica do fracasso, pois é o fracasso que faz o “negócio” da educação girar, inclusive, com os “50 mangos” para os alunos.
Pensemos o tema por outros caminhos. Ao contrário de formarmos bem nossos professores nas universidades, agora já não temos nem mesmo vergonha de dizer que não os formamos mais, que os cursos de graduação com suas licenciaturas são apenas um primeiro momento, antes do início da roda-vida de especializações, aperfeiçoamentos, formação continuada, cursos disso e daquilo, que movem um rentável mercado educacional não somente nas universidades privadas, mas também nas públicas. Bem, podemos dizer que os alunos vão mal em matemática porque os professores deles não sabem mais matemática, pois não aprenderam muita coisa nos seus cursos de bacharelado e de licenciatura, embora saibam tudo sobre trans, intra, supradisciplinaridade, inteligências múltiplas, motivação, afeto, olfato e qualquer outra bobagem de ocasião. Culpa dos professores que se desviaram de sua função? Não, culpa da máquina que faz um negócio vazio de conteúdo e cheio de verbas e recompensas girar de forma bem azeitada.
O negócio educacional vai dos R$ 50 para estudantes do ensino fundamental até bolsas mensais de um pouco mais de R$ 1 mil para professores das universidades públicas que, empobrecidos com seus salários, veem a possibilidade de quitar a dívida do cheque especial. E assim as escolas não ensinam seus alunos e as universidades não formam futuros professores para que a educação continue a ser uma fábrica de fracassos de sucesso absoluto. Os alunos não sabem matemática por que seus professores não os motivam a aprender? Os métodos empregados são ultrapassados? Qual seria a fórmula para que esses jovens aprendam matemática? Novos métodos? Novas pedagogias? A última “descoberta” sobre o funcionamento da inteligência, publicada em alguma revista de caráter duvidoso? Nada disso. Faltam políticas efetivas que atuem na formação dos professores nas universidades. Para aquele professores que se encontram no exercício da profissão, faz falta que sejam bem pagos, que tenham acesso à cultura, à bibliotecas, e que retornem às universidades, frequentando os cursos já existentes, os grupos de pesquisa, além das atividades do cotidiano da universidade, para que ali tenham contato com a produção do conhecimento na sua área de ensino, sem que ninguém seja desviado das suas tarefas e funções. É muito simples, mas não gera lucro e não têm dividendos, sem falar que emperra a máquina que faz o negócio da educação girar com sucesso, fazendo os “50 mangos” irem para o lugar certo.
Maria Rita de Assis César, doutora em Educação, é professora do Departamento de Teoria e Prática de Ensino do Setor de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPR. Coordenadora do Laboratório de Investigação sobre Corpo, Gênero, Subjetividade e Educação e Pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero.
| Maria Rita César: “Maternidade é uma questão de Estado” | ||
Por: Graziela Wolfart e Márcia Junges, 07/06/2010 | ||
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Acredita-se que as redes de relacionamento social existam para nos manter em contato com velhos e novos ‘amigos’. Sem levar em conta o estatuto duvidoso dessas 'amizades' que se multiplicam incessantemente pelos Facebooks da vida (alguém pode ter mais de 200 amigos?), é claro que as redes nos aproximam de quem está distante. No entanto, antes mesmo do advento das redes de relacionamento social já dispunhamos de outros meios virtuais, aparentemente mais eficientes, para o contato e a proximidade com nossos amigos, tais como o Skype ou o MSN. Com o acoplamento de uma simples câmera ao computador, tais ferramentas permitem ver e interagir com a pessoa com quem falamos, de modo que se quiséssemos realmente apenas estar próximos de nossos amigos deveríamos recorrer preferencialmente àquelas ferramentas e não às redes de relacionamento social. Suspeito, entretanto, que já não estejamos muito interessados em falar ou nos relacionar com nossos amigos, nem mesmo sequer por meio de mensagens escritas: quantas vezes não observamos que um 'amigo' está on line no Facebook, mas não temos a menor vontade de conversar com ele? Sim, as redes de relacionamento social permitem estabelecer conexões entre seus usuários, sem, contudo, aproximar e relacionar as pessoas. Agrada-nos saber que as pessoas estão por ali, disponíveis, acessíveis, conectadas, desde que não tenhamos de estabelecer uma relação mais próxima com elas.
Há também quem afirme que as redes de relacionamento social permitem construir um espaço aberto de troca de opiniões e de discussões políticas, sem qualquer coerção objetiva para além do acesso a um computador ligado à internet. É verdade, e o mesmo também vale para as mensagens enviadas pelo Twitter ou pelo celular. No entanto, creio que esse uso propriamente político das redes de relacionamento social é mais do que limitado se levarmos em conta seu usuário padrão. Pode-se argumentar que o meio virtual torna possível disseminar informações e opiniões políticas instantaneamente, e é fato que a rede mundial de computadores dá suporte a um sem número de grupos de discussão política. Não me detenho aqui na avaliação da qualidade da informação e das discussões políticas alimentadas pelos comentários e opiniões de pessoas continuamente incitadas a dizer imediatamente o que pensam sobre todo tipo de assunto. Salvo excessões, tais opiniões são desprovidas de reflexividade e permanecem enclausuradas no nível primário da reiteração de preconceitos adquiridos desde longa data. Este é o preço a pagar pela democratização da irreflexividade que corrói a relevância das opiniões políticas bem formadas em nome da interatividade instantânea, acessível a qualquer um sob a proteção do anonimato e da ausência de responsabilidade. Nesse sentido, parece-me que as redes de relacionamento social tendem a empobrecer ainda mais os argumentos políticos apresentados na rede virtual. Afinal, num blog o tempo e o espaço destinados a pensar e escrever sobre algum assunto político é muito maior do que no caso das ferramentas de relacionamento social, mais rápidas e instantâneas. Como apresentar um argumento político minimamente coerente ou complexo em 140 caracteres (ou menos), limite imposto pelo Twitter? Como observou Marcia Tiburi no seu excelente ensaio sobre as implicações e desvarios da comunicação via Twitter, no número 147 da Revista Cult, a linguagem irônica da ‘piada’ reduz aquilo a que se refere à lógica publicitária do slogan, que corrompe e impossibilita o diálogo político. Suponho que, com o crescimento das redes de relacionamento social, cada vez menos pessoas estarão dispostas a perder seu tempo compondo ou lendo matérias nos blogs: mais valerá 'curtir' um vídeo postado no Facebook ou escrever um comentário jocoso seja lá sobre o que for no Twitter. Revista Cult » Sobre Twitter e Severinos
Mas então, por que as ferramentas de relacionamento social se tornaram imprescindíveis para milhões de pessoas no mundo todo? Arrisco uma hipótese. Talvez as redes de relacionamento social não se destinem, em primeiro lugar, a aproximar as pessoas, promover relações afetivas, discutir problemas políticos ou estabelecer parcerias profissionais, como frequentemente se afirma. Talvez sua importância se deva ao fato de que as redes nos proporcionam duas coisas essenciais no mundo contemporâneo: elas nos permitem estabelecer conexões que se multiplicam indefinidamente e sem maior compromisso entre as pessoas envolvidas; ao mesmo tempo, elas também nos garantem uma oportunidade para nos manifestarmos e nos tornarmos simbolicamente valiosos e visíveis. Vejamos como se articulam essas duas dimensões fundamentais das redes de relacionamento social.


Estar presente nas redes de relacionamento social é também uma maneira de permanecer ‘ligado’, ‘conectado’, up to date, ou seja, em conformidade com as demandas e solicitações do presente imediato. Confirmamos, assim, nossa adesão ao gigantesco fluxo da produção, captação e reprodução de informações, gerado espontaneamente pelo compromisso voluntário de milhões de usuários que se consideram livres, donos e criadores de sua própria existência, no exato momento em que ‘caem’ na rede e são por ela afetados de maneiras muito semelhantes. Trata-se aí de uma captura, sim, pois a rede que promove o relacionamento entre as pessoas também o padroniza e limita, aspecto que se comprova pela gritante reiteração de posts que apenas se repetem e quase nunca trazem qualquer surpresa ou novidade.
Além disso, as redes de relacionamento social também suprem uma necessidade contemporânea, central nas sociedades espetacularizadas em que vivemos, a necessidade de manifestarmos aos outros ‘quem’ somos. Mais propriamente falando, tais ferramentas constituem meios adequados para mostrar aos outros o que queremos que eles vejam. Desse ponto de vista, as redes de relacionamento social funcionam como imensa vitrine na qual cada um se apresenta como mercadoria portadora de logo publicitária e valor simbólico agregado. Já notaram como as pessoas parecem ser muito mais ‘interessantes’ nas redes de relacionamento do que ao vivo? Nas redes, apresentamo-nos como mercadorias valiosas no vasto mercado das trocas simbólicas diversificadas de nosso tempo. A cada post ou comentário, agimos no sentido de valorizar e incrementar nosso ‘capital humano’, isto é, buscamos valorizar a persona virtual que deve nos promover e abrir novas conexões com os outros, dentro e fora da rede.
Por isso, nas redes de relacionamento social estamos continuamente ocupados com a construção de nossa persona virtual. Este processo começa com a declaração de informações determinadas, como preferências musicais, culturais, citações prediletas, filmes do coração, empregador, religião, etc., e se prolonga indefinidamente na postagem cotidiana de fotografias de lugares visitados e de pessoas queridas; vídeos de músicas extraídos do Youtube; informações sobre assuntos diversos retirados da internet; comentários a respeito do material que outros postaram e que nós 'curtimos'. Em meio à contínua construção de nossa personalidade virtual, os limites entre público e privado vão se fazendo quase totalmente indiscerníveis, tornando questionável até mesmo pensar segundo os termos daquela velha distinção.

Querendo ou não, quem ‘cai’ na rede muito rapidamente sente o afeto obsessivo de averiguar a repercussão de seus posts e comentários. Discretamente, se instala e se reproduz o desejo de que nossa persona virtual alcance o máximo rendimento simbólico no mercado fugaz das identidades publicitárias. Queremos nos tornar celebridades, ainda que capazes apenas de brilhar no tempo exíguo de exibição de uma página do Facebook (post antigo é página virada). No instante em que isto ocorre, então sentimos que nos tornamos visíveis, que somos alguém e que temos um rosto. Estabelecido o jogo do reconhecimento virtual, o afeto que enviamos e espalhamos pela rede é sempre o mesmo: vejam como tenho vários ‘amigos’ (quer dizer, seguidores), como sou versátil, divertido, inteligente, sagaz; vejam como tenho bom gosto musical, como conheço vários lugares diferentes e exóticos, vejam como sei o que está acontecendo agora. Numa roda de amigos, quem não participa das redes de relacionamento social virtual é deficitário em vários sentidos. Crusoés pós-modernos, usamos nossos computadores para fazer sinais de fumaça para outros indivíduos, também eles ilhados em seus computadores. Como o reconheceu Bauman, apenas seres isolados e desligados dos outros precisam urgentemente ‘conectar-se’ com eles.
É assim, me parece, que se tornam compreensíveis os motivos e os afetos que presidem à nossa participação intensiva nas redes de relacionamento social. Não nego, evidentemente, o caráter lúdico e prazeroso da participação nas redes. Ainda assim, creio ser fundamental pensar as afetações que elas trazem consigo, pois é justamente por meio de seu caráter lúdico e prazeroso que elas capturam seus participantes, pautando e predeterminando as possibilidades de seus relacionamentos e de seus modos de ser. Tomando emprestado o vocabulário proposto por Foucault e Deleuze, podemos pensar os usuários das redes de relacionamento social como peças voluntariamente mobilizadas no interior de um dispositivo biopolítico ilimitado, capaz de controlar e regular a vida das pessoas em suas dimensões mais sensíveis. Compreende-se agora porque a pergunta que encabeça o mural do Facebook é: “em que você está pensando agora?” Tal dispositivo agencia e controla os comportamentos, sentimentos e pensamentos contemporâneos, afetando-os de maneira discreta, porém eficiente e padronizada, ao destiná-los ao ciclo perpétuo da autopromoção e da autovalorização obsessiva. Ao mesmo tempo, a rede também dispõe acerca do modo e da intensidade com que queremos estabelecer relações com os outros. Não será por isso que as páginas pessoais dos usuários das redes de relacionamento social se parecem tanto umas com as outras?
O fantástico egocentrismo virtual promovido pelas redes de relacionamento social torna evidente dois aspectos centrais de nossa sociabilidade contemporânea: por um lado, nossa participação obsessiva nas redes é sintoma de nosso crescente desejo de conexão e de nossa crescente aversão ou, ao menos, dificuldade de manter relações com os outros. Queremos ter um milhão de ‘amigos’ desde que tais ‘amizades’ não nos confrontem, perturbem, toquem, questionem ou responsabilizem. Ou, como disse Bauman, queremos a todo instante apertar os laços de nossa sociabilidade, ao mesmo tempo em que os queremos frouxos…para que assim possamos continuar estabelecendo mais e mais conexões impermanentes. Ademais, ao cairmos presas das redes de relacionamento social, rapidamente nos convertemos em mercadorias sujeitas à exigência da contínua valorização, sob pena de nos tornarmos moeda podre no rápido e competitivo mercado das relações sociais contemporâneas, transitórias e instáveis.
Se é óbvio que nossa presença nas redes de relacionamento social não abole nossas relações propriamente ditas com os outros, também é certo que o tempo que dispendemos nas redes, plugados a nossos computadores e celulares, é ganho contra o tempo em que poderíamos estar com nossos amigos. Lembro-me aqui de um filme premonitório de 1995, Denise está chamando, de Hal Salwen, no qual um grupo de amigos passa o tempo todo dependurado no telefone - ainda não habitávamos plenamente a www -, sem jamais conseguir se encontrar. Tudo isso sem falar do tempo que gastamos espiando, vidrados, a sequência infinita dos posts. Tempo que poderíamos empregar para ver um filme, para conversar com um amigo, para ler um livro, para pensar algo e escrever num blog, ou, simplesmente, para estar junto aos amigos e à pessoa que amamos. Ou será que já nada disso nos interessa tanto assim?Por fim, restam algumas atitudes de resistência em relação à afetação que as redes produzem em nossa sensibilidade e em nossa sociabilidade: sempre poderemos nos desligar delas; ou então, desconfiarmos dos afetos autopromocionais e das afetações que elas continuamente provocam em nossas formas de estabelecer relações sociais. A invenção de novas formas de emprego das redes de relacionamento social, tendo em vista promover novas formas de efetiva relação entre as pessoas, tem de ser conquistada cotidianamente e a contrapelo dos mecanismos silenciosos que padronizam e afetam nossa criatividade, sensibilidade e sociabilidade. Tudo isso, contudo, depende de nossa capacidade de reflexão sobre o impacto que as redes de relacionamento social têm sobre nossas relações com os outros e conosco mesmos. O presente ensaio não pretendeu ser mais que uma pequena contribuição nessa direção.