domingo, 12 de janeiro de 2014

Curtas: Ninfomaníaca, de Lars von Trier





Esqueça o estardalhaço midiático em torno de Ninfomaníaca, de Lars von Trier. Esqueça as polêmicas destinadas a torná-lo um cult movie ou um dramalhão sobre sexo e culpa cristã. Esqueça as comparações apressadas com Shame, de Steve McQueen, um filme pobre, limitado a contar a história de um viciado sexual. Esqueça o sexo, esqueça também o erotismo, a fantasia, o calor e, sobretudo, esqueça o amor. Esqueça tudo isso ao menos por um momento, pois quando o filme começar você terá muito o que ver e pensar, sua inteligência e sensibilidade serão requisitadas, então se acalme. Ninfomaníaca se inicia no escuro e assim permanece por longos segundos silenciosos, artifício estético que contrasta de maneira paradoxal com o falatório incentivado pelo diretor e pelos produtores comerciais do filme.
Sim, Ninfomaníaca é um filme interessante porque composto de paradoxos. O primeiro e mais importante destes paradoxos é o de que ele é e não é um filme sobre sexo. Claro que há nele inúmeras cenas de relações sexuais, como, aliás, poucos filmes comerciais ousaram fazer até agora. No entanto, a verdadeira ousadia não está no fato de que a jovem Joe, belamente interpretada pela novata Stacy Martin, transe com qualquer um e que tudo  nos seja mostrado em cenas (quase) explícitas. Não, o importante está justamente em que nesta primeira etapa do filme o sexo não seja sinônimo de busca do prazer, não se confunda com a busca de afeto, não seja o elemento central de uma ou muitas relações amorosas.
 


Pelo contrário, o sexo é ali a arma letal com que Joe quer se livrar do amor e de toda relação amorosa possível, assassinando-os. Mas o que começa de maneira vulgar e simplória, como jogo ou competição entre amigas para ver quem consegue ‘fisgar’ mais homens numa viagem de trem, rapidamente assume o estatuto de fim em si mesmo, convertendo-se em vício sexual que mutila a vida de Joe (Charlotte Gainsbourg), resumindo-a a ser pouco mais que a repetição desvairada de atos sexuais desprovidos de sentido.

Para prosseguir com a lista dos paradoxos, Ninfomaníaca é um filme gélido, cortante, nele quase não há luz ou calor. Mas, por outro lado, há nele também muito acolhimento e cuidado, estampados nos papéis masculinos do pai (Christian Slater) de Joe e do enigmático Seligman (Stelan Skarsgaard), que a recolhe em frangalhos do meio da rua. O homem velho e culto, sobre o qual nada se sabe, parece assumir a posição de um psicanalista que ouve as histórias de Joe e se limita a pontuá-las com breves comentários, que parecem pretender auxiliar Joe a se descolar da severidade dos juízos morais que ela dirige contra si mesma, abrindo espaço para a possível descoberta do sentido errático de sua vida. Se pensarmos em Anticristo e Melancolia, esta será a primeira vez que von Trier nos oferece personagens masculinos sábios e afetuosos, distantes do estereótipo do cientista prepotente, autoritário e, ao final, sempre impotente. 
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Para concluir a série dos paradoxos, Ninfomaníaca é um filme deprimente, mas talvez também seja o filme menos dramático de von Trier em muitos anos. Ele chega, inclusive, a nos dar a rara oportunidade de rir, ainda que apenas discretamente e por breves instantes, sobretudo na cena do melodrama seco, interpretada por Uma Thurman.

Finalmente, o filme ainda é capaz de reunir Bach http://youtu.be/X9Dh43kVL1Q, César Franck http://youtu.be/fmPGgvavvRw  e o heavy-metal alemão que abre e encerra a sua primeira metade. http://youtu.be/s2e8HDWameo

Quanto a mim, fiquei bastante curioso para saber como se desenrola a história, que se  interrompe de maneira magistral numa verdadeira aula de cinema. Agora é esperar até o lançamento da segunda parte, prevista para março. 


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